{"id":694,"date":"2025-01-27T09:48:17","date_gmt":"2025-01-27T12:48:17","guid":{"rendered":"https:\/\/www.descomplicaterapia.com.br\/blog\/?p=694"},"modified":"2025-01-27T18:21:52","modified_gmt":"2025-01-27T21:21:52","slug":"cinema-e-psicologia-babygirl","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.verbopsicologia.com.br\/blog\/cinema-e-psicologia-babygirl\/","title":{"rendered":"Cinema e psicologia: an\u00e1lise do filme Babygirl"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-weight: 400\">Este texto \u00e9 o primeiro da s\u00e9rie \u2018Cinema e Psicologia\u2019 do blog, uma proposta de analisar produ\u00e7\u00f5es cinematogr\u00e1ficas atrav\u00e9s de lentes da Psicologia. Para essa abertura escolhi o filme \u201cBabygirl\u201d (2024), de Halina Reijn, que no momento em que escrevo est\u00e1 nos cinemas e j\u00e1 pode ser considerado um sucesso de bilheteria. O impacto pessoal que esse filme me gerou, com certeza, \u00e9 um dos motivos pelo qual o escolhi. Por\u00e9m, o fato de mobilizar quest\u00f5es de poder, abuso, confian\u00e7a e transforma\u00e7\u00e3o pessoal tamb\u00e9m foi essencial para que o filme me parecesse uma perfeita primeira escolha para um blog dedicado \u00e0 sa\u00fade mental.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Apesar de ser um filme relativamente simples de compreender e acompanhar, sua for\u00e7a, a meu ver, vem da destreza como constr\u00f3i uma narrativa que foge aos clich\u00eas e institui uma posi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Essa maneira de narrar me chegou como um grande al\u00edvio, especialmente por estarmos falando do campo do amor, da atra\u00e7\u00e3o sexual e da sexualidade. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Prefiro n\u00e3o fazer uma descri\u00e7\u00e3o detalhada da trama e escrevo para quem j\u00e1 o assistiu (<strong>cont\u00e9m spoilers!!!<\/strong>), mas me parece importante fazer um breve resumo de contextualiza\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O filme trata da hist\u00f3ria de Romy (Nicole Kidman), uma CEO de uma grande empresa de entregas robotizadas, casada com o diretor de teatro Jacob (Antonio Banderas), com quem tem duas filhas, Isabel (Esther Rose McGregor) e Nora (Vaughan Reilly). Ela \u00e9 aparentemente feliz por suas conquistas, estrutura familiar e rotina, mas logo de in\u00edcio ficamos sabendo que, apesar disso, \u00e9 frustrada sexualmente na rela\u00e7\u00e3o com o marido. Toda a hist\u00f3ria se desenrola centralmente sobre seu envolvimento com um estagi\u00e1rio bem mais jovem, Samuel (Harris Dickinson), fato que sucede na medida em que constroem juntos uma maneira de explorar a sexualidade que at\u00e9 ent\u00e3o ela nunca havia experimentado. Romy descobre com Samuel um desejo sexual que joga com o poder e a coloca num lugar de submiss\u00e3o e, assim, pouco a pouco descobre tamb\u00e9m uma for\u00e7a que a leva a uma posi\u00e7\u00e3o mais aut\u00eantica e livre no mundo.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-696 aligncenter\" src=\"https:\/\/www.descomplicaterapia.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/babygirl1-300x169.jpg\" alt=\"\" width=\"815\" height=\"459\" srcset=\"https:\/\/www.verbopsicologia.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/babygirl1-300x169.jpg 300w, https:\/\/www.verbopsicologia.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/babygirl1-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/www.verbopsicologia.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/babygirl1-768x432.jpg 768w, https:\/\/www.verbopsicologia.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/babygirl1-1536x864.jpg 1536w, https:\/\/www.verbopsicologia.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/babygirl1-2048x1152.jpg 2048w\" sizes=\"(max-width: 815px) 100vw, 815px\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2>Cr\u00edticas ao filme<\/h2>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Como sou estudiosa do feminismo, uma das primeiras coisas que me chamou a aten\u00e7\u00e3o sobre o filme foi a resposta singular que ele parece trazer a um impasse atual deste movimento social: pode a mulher gozar no lugar de submissa sem reproduzir o machismo?\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Muitas feministas, sob a ideia de que \u201co pessoal \u00e9 pol\u00edtico\u201d e portanto de que \u201co que acontece na cama \u00e9 a (re)produ\u00e7\u00e3o do que acontece fora dela\u201d, dir\u00e3o que a posi\u00e7\u00e3o de submiss\u00e3o no sexo \u00e9 uma maneira de produzir e reproduzir o sistema patriarcal. Para esta cr\u00edtica, al\u00e9m de ser imposs\u00edvel fazer uma separa\u00e7\u00e3o entre a fantasia sexual e a \u201cvida real\u201d, \u00e9 ruim que mulheres desejem assumir essa posi\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que ela significaria um obst\u00e1culo aos objetivos de um feminismo que quer emancipar mulheres do lugar de subordina\u00e7\u00e3o aos homens. O ponto central deste argumento seria justamente a inseparabilidade entre a fantasia e a realidade, argumento com o qual discutirei mais adiante.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Outra cr\u00edtica feminista que se poderia apontar \u00e9 a de uma flagrante quest\u00e3o de classe e ra\u00e7a no filme. \u00c9 poss\u00edvel interpretar que o privil\u00e9gio de Romy \u00e9 o que permite que ela possa se colocar em qualquer posi\u00e7\u00e3o (sexual), sem verdadeiramente estar correndo um risco. A personagem chega a afirmar em algum momento da hist\u00f3ria que o fator <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">risco<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> \u00e9 justamente o n\u00facleo de seu desejo sexual, mas \u00e9 poss\u00edvel que nos questionemos o quanto ela realmente perderia. Neste sentido, o filme estaria transmitindo a mensagem de que se permitir assumir a posi\u00e7\u00e3o de submiss\u00e3o pode ser algo positivo, sem considerar que a grande maioria das mulheres est\u00e1 enredada em tramas de sujei\u00e7\u00e3o ao poder que n\u00e3o lhes permitem essa mesma liberdade de se colocar em \u201crisco\u201d. Quer dizer, por mais que se transmita que a troca de posi\u00e7\u00f5es pode levar a uma transforma\u00e7\u00e3o potente, o filme n\u00e3o aborda um questionamento sobre em que posi\u00e7\u00e3o se deve estar previamente, como mulher, para que esse passo seja poss\u00edvel. Ser\u00e1 que \u00e9 preciso partir da posi\u00e7\u00e3o de CEO, branca, rica e de um pa\u00eds central para que se possa entregar o pr\u00f3prio poder sem verdadeiramente correr o risco do desamparo total?\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Considero esses dois argumentos v\u00e1lidos e minha an\u00e1lise n\u00e3o os descarta como cr\u00edticas importantes. No entanto, quero focar em uma perspectiva que &#8211; espero &#8211; complemente essas interpreta\u00e7\u00f5es atrav\u00e9s da Psicologia.\u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\" wp-image-697 aligncenter\" src=\"https:\/\/www.descomplicaterapia.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/babygirl4-300x169.jpg\" alt=\"\" width=\"810\" height=\"456\" srcset=\"https:\/\/www.verbopsicologia.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/babygirl4-300x169.jpg 300w, https:\/\/www.verbopsicologia.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/babygirl4-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/www.verbopsicologia.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/babygirl4-768x432.jpg 768w, https:\/\/www.verbopsicologia.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/babygirl4-1536x864.jpg 1536w, https:\/\/www.verbopsicologia.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/babygirl4.jpg 1600w\" sizes=\"(max-width: 810px) 100vw, 810px\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2><span style=\"font-weight: 400\">O que podemos abrir de reflex\u00e3o sobre a mulher que goza no lugar de submiss\u00e3o?\u00a0<\/span><\/h2>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Para responder a essa pergunta, retomo a cena logo ap\u00f3s Samuel e Jacob entrarem em um conflito no qual se agridem. Ao descobrir que Samuel e Romy estavam se relacionando atrav\u00e9s de um jogo de poder entre dominador e submissa, Jacob diz a Samuel: \u201cO masoquismo feminino \u00e9 [apenas] uma fantasia masculina\u201d; ao que Samuel responde: \u201cEssa \u00e9 uma ideia antiquada sobre a sexualidade\u201d. Com isso, somos levados a uma tor\u00e7\u00e3o interessante quanto ao modo de entendermos a posi\u00e7\u00e3o das mulheres no sexo, j\u00e1 que a ideia de que <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">a mulher n\u00e3o \u00e9 submissa<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> \u00e9 lida como antiquada e n\u00e3o o contr\u00e1rio. Se com essa fala Jacob representa o homem artista, sens\u00edvel, e que de certo modo aprendeu com o feminismo de sua \u00e9poca que a mulher n\u00e3o \u00e9 e n\u00e3o quer a posi\u00e7\u00e3o de submiss\u00e3o, Samuel &#8211; diferente de reiterar o lugar submisso da mulher como uma ess\u00eancia de seu g\u00eanero &#8211; representa o homem que respeita a sexualidade da mulher e a sua pr\u00f3pria, seja ela qual for. A palavra \u201cantiquada\u201d, a\u00ed, marca simbolicamente uma diferen\u00e7a geracional que diz n\u00e3o apenas das pessoas envolvidas no di\u00e1logo, mas de diferentes gera\u00e7\u00f5es de homens e suas maneiras de pensar a sexualidade. Assim, o filme tamb\u00e9m diz de uma gera\u00e7\u00e3o de mulheres mais velhas em busca de terem sua sexualidade respeitada e ampliada. Aqui me parece v\u00e1lido fazer um pequeno ap\u00eandice recuperando um di\u00e1logo de outra cena, em que Samuel e Romy est\u00e3o conversando num contexto p\u00f3s-festa e Romy pergunta a ele sobre seus sentimentos por outra mulher, em compara\u00e7\u00e3o com o que sente por ela. Ele responde algo do tipo: \u201cEu me gosto de um jeito quando estou com voc\u00ea e de um jeito diferente quando estou com ela\u201d. Considero essa fala, que poderia parecer um detalhe, uma marca geracional important\u00edssima, j\u00e1 que demonstra o quanto, para Samuel (e sua gera\u00e7\u00e3o), o n\u00facleo da sexualidade tamb\u00e9m gira em torno de <em>como sentimos a n\u00f3s mesmos quando estamos com algu\u00e9m<\/em> &#8211; o que difere da gera\u00e7\u00e3o anterior, cujo n\u00facleo estaria no que se sente <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">por<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"><em> algu\u00e9m<\/em> e n\u00e3o por si.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Romy se permite viver essa experi\u00eancia, mas constantemente reflete seu conflito interno de que, se por um lado sente muito prazer, por outro sente que est\u00e1 fazendo algo errado ou sujo. A culpa que permeia seu conflito aparece ao longo do filme atrav\u00e9s de duas faces: 1. a vergonha, por exemplo quando se recusa a dan\u00e7ar; quando cobre seu rosto com um len\u00e7ol e pede ao marido que transem; ou quando se sente envergonhada ao obedecer a Samuel pela primeira vez e 2. as confiss\u00f5es, por exemplo quando diz a Samuel que tem medo de que ele se machuque devido a ela ter poder sobre ele; ou quando revela a Jacob que desde a inf\u00e2ncia tem desejos imundos que nunca p\u00f4de extirpar de si. Destaco esse fator que me pareceu muito interessante: a trai\u00e7\u00e3o n\u00e3o aparece como um fator central de culpa e sim sua pr\u00f3pria liberta\u00e7\u00e3o sexual.\u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\" wp-image-704 aligncenter\" src=\"https:\/\/www.descomplicaterapia.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/babygirl3-1-300x169.jpg\" alt=\"\" width=\"808\" height=\"455\" srcset=\"https:\/\/www.verbopsicologia.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/babygirl3-1-300x169.jpg 300w, https:\/\/www.verbopsicologia.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/babygirl3-1-1024x575.jpg 1024w, https:\/\/www.verbopsicologia.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/babygirl3-1-768x431.jpg 768w, https:\/\/www.verbopsicologia.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/babygirl3-1.jpg 1200w\" sizes=\"(max-width: 808px) 100vw, 808px\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A diretora d\u00e1 a entender muito implicitamente que algo aconteceu na inf\u00e2ncia de Romy &#8211; provavelmente um abuso sexual em contexto de culto religioso &#8211; que incutiu nela um desejo sexual do qual ela tentou se curar de todas as maneiras poss\u00edveis: m\u00faltiplas terapias, disciplina, constru\u00e7\u00e3o de uma vida \u201cnormal\u201d e perfeita, dedica\u00e7\u00e3o amorosa \u00e0 fam\u00edlia etc. Sentir-se suja, nesse sentido, remeteria \u00e0 ideia de que, ao dar vaz\u00e3o a um desejo sexual que surge desse contexto, estaria de certa forma afirmando que gostou de ser abusada ou que aprova o abuso sexual infantil. A liberta\u00e7\u00e3o sexual de Romy, portanto, significa muito mais que apenas uma quest\u00e3o de permitir-se jogar um jogo; ela significa a batalha de enfrentar o conflito e tirar de sua experi\u00eancia traum\u00e1tica algo positivo, sem contudo tornar-se um monstro.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Na minha interpreta\u00e7\u00e3o, \u00e9 genial a maneira com que a diretora destacou a sexualidade em seu potencial terap\u00eautico. Isso porque uma sexualidade em que Romy goza no lugar de ser mandada a <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">coloca<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> e a <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">liberta<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, ao mesmo tempo, da obriga\u00e7\u00e3o de ser essa \u201cboa menina\u201d que por tanto tempo sustentou. Quer dizer, na fantasia, quando se torna a \u201ccachorrinha\u201d, ela \u00e9 <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">colocada<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> na posi\u00e7\u00e3o de \u201cboazinha\u201d, j\u00e1 na \u201cvida real\u201d, ela \u00e9 <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">libertada<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> dessa mesma posi\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que abdica da perfei\u00e7\u00e3o na medida em que aceita seu desejo sexual.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A ideia de que a sexualidade \u00e9 paradoxal seria, ent\u00e3o, a chave que cria uma enorme diferencia\u00e7\u00e3o entre a fantasia e a realidade. Nesse sentido, o s\u00edmbolo da \u201cbaby girl\u201d tamb\u00e9m aparece em outras duas faces paradoxalmente ligadas entre si: por um lado, revela o lugar infantilizado e obediente de Romy (tal qual a crian\u00e7a abusada) e por outro, revela seu lugar de mulher adulta que tem poder e, com ele, escolhe confiar num homem adulto que a controla. Da\u00ed que esse s\u00edmbolo apare\u00e7a em seu potencial curativo: no sexo, \u00e9 poss\u00edvel a Romy que se remeta ao trauma do abuso atualizando-o sob novos matizes. Por essa via, ela deixa de ser a \u201cboa v\u00edtima\u201d para tornar-se dona de um desejo que sua hist\u00f3ria\u00a0 (traum\u00e1tica) constituiu.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que a confian\u00e7a seja um tema central do filme. Ter algu\u00e9m em quem confiar para conduzi-la foi condi\u00e7\u00e3o pr\u00e9via para que o conflito pudesse aparecer e se desfazer.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A Psicologia (e mais especificamente, a psican\u00e1lise) entende que sem confian\u00e7a e entrega a outra pessoa, nenhum conflito ps\u00edquico se desfaz. Isso porque \u00e9 o outro quem tem o poder de sustentar conosco &#8211; ou n\u00e3o &#8211; a aceita\u00e7\u00e3o de quem somos integralmente. Seria imposs\u00edvel fazermos isso de maneira individual porque somos seres interdependentes e nossa posi\u00e7\u00e3o no mundo depende de nos sentirmos pertencentes a partir do olhar do outro. Esse olhar que de certa forma \u201cincorporamos\u201d pode ser percebido por n\u00f3s de maneiras diferentes de acordo com as experi\u00eancias que vivemos e vai mudando conforme as novas experi\u00eancias relacionais, tamb\u00e9m. Por isso, seremos mais saud\u00e1veis psiquicamente quanto mais generoso e continente for esse olhar que vamos recebendo e incorporando.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">\u00c9 fundamental para a narrativa, portanto, que a trai\u00e7\u00e3o deixe de ser impasse moral, como se esperaria de um clich\u00ea, para ser um impasse de psiquismo. A quest\u00e3o sobre a qual orbitamos \u00e9: vale mais a pena sustentar uma vida robotizada e correta, ou correr o risco da transforma\u00e7\u00e3o ps\u00edquica? Nunca &#8211; repito -, nunca a transforma\u00e7\u00e3o se d\u00e1 sem que se corra riscos. Confiar \u00e9 um risco, pois \u00e9 entrega. Nesse sentido, mais um elemento interessante da trama \u00e9 que sempre que Romy busca exercer mais fortemente seu controle da situa\u00e7\u00e3o, Samuel d\u00e1 um jeito de fur\u00e1-lo, demonstrando que depois que a transforma\u00e7\u00e3o come\u00e7a, \u00e9 quase imposs\u00edvel voltar atr\u00e1s e refazer uma situa\u00e7\u00e3o de seguran\u00e7a total. \u00c9 o que acontece, por exemplo, sempre que ele aparece de surpresa na casa de Romy ou quando Romy amea\u00e7a a pr\u00f3pria funcion\u00e1ria Esme (Sophie Wilde) por estar namorando Samuel e ele conta \u00e0 namorada que tem um caso com a chefe, o que d\u00e1 a ela o poder de manipula\u00e7\u00e3o ao rev\u00e9s.\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-699 aligncenter\" src=\"https:\/\/www.descomplicaterapia.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/babygirl5-300x169.webp\" alt=\"\" width=\"809\" height=\"456\" srcset=\"https:\/\/www.verbopsicologia.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/babygirl5-300x169.webp 300w, https:\/\/www.verbopsicologia.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/babygirl5-1024x576.webp 1024w, https:\/\/www.verbopsicologia.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/babygirl5-768x432.webp 768w, https:\/\/www.verbopsicologia.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/babygirl5-1536x864.webp 1536w, https:\/\/www.verbopsicologia.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/babygirl5-2048x1152.webp 2048w\" sizes=\"(max-width: 809px) 100vw, 809px\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2><strong>Conclus\u00e3o<\/strong><\/h2>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Li algumas coment\u00e1rios de pessoas que se incomodaram com o filme devido a, ao final, Romy n\u00e3o ter perdido absolutamente nada. Pelo contr\u00e1rio, ela chega ao patamar de uma vida sexual mais feliz com o marido, mant\u00e9m seu cargo de CEO, melhora a rela\u00e7\u00e3o com as filhas e se sente mais aceita e empoderada. Se bem essa cr\u00edtica conversa em algum grau com a cr\u00edtica de que ela s\u00f3 p\u00f4de se colocar em risco devido a seu privil\u00e9gio, tamb\u00e9m me chegou como uma cr\u00edtica que diz de um desejo de puni\u00e7\u00e3o muito pautado numa perspectiva crist\u00e3 de que Romy seria culpada e por isso deveria sofrer as consequ\u00eancias de seus atos. Infelizmente, essa l\u00f3gica segue muito incorporada em nossa cultura e \u00e9 uma das grandes barreiras \u00e0s pessoas para que vivam sua vida de maneira mais honesta e aut\u00eantica. Minhas lentes v\u00e3o mais para uma perspectiva de que, por mais que Romy tenha mentido para o marido, ela p\u00f4de se responsabilizar por seus atos &#8211; a partir do tempo necess\u00e1rio para isso &#8211; de maneira cuidadosa e franca. N\u00e3o houve romantiza\u00e7\u00f5es em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 rea\u00e7\u00e3o de Jacob e isso \u00e9 \u00f3timo. Ele se irritou, ficou confuso e n\u00e3o quis aceitar a verdade de que sua esposa estava sexualmente frustrada. No entanto, na medida em que foi podendo escutar essa verdade, tamb\u00e9m p\u00f4de compreend\u00ea-la num sentido mais amplo e abrir a possibilidade de que refizessem uma intimidade mais forte e bela. O mesmo aconteceu com as filhas, especialmente sua filha mais velha. A verdade pode ser dura, mas \u00e9 verdadeira. A reflex\u00e3o que fica \u00e9 sobre se queremos viver uma vida compromissada com com essa verdade, correndo o risco de suas consequ\u00eancias, ou n\u00e3o. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Ao final das contas, Romy poderia ter perdido seu cargo, poderia ter passado a ser odiada pela fam\u00edlia, poderia ter perdido sua reputa\u00e7\u00e3o. Mas n\u00e3o o perdeu porque foi aceita. Suas filhas ganharam, com isso, uma rela\u00e7\u00e3o mais inteira com a m\u00e3e; seu marido, um casamento mais feliz; sua empresa, uma maior abertura para ideias inovadoras; Samuel, um emprego vantajoso. E isso s\u00f3 p\u00f4de acontecer pela responsabilidade com que Romy conduziu a situa\u00e7\u00e3o. Creio que esse filme institui um importante esperan\u00e7ar (mais especial ainda devido ao contexto em que vivemos) de que acolhermos nossos conflitos com um amor respons\u00e1vel pode potencializar o amor e a felicidade individual e coletiva. <\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Este texto \u00e9 o primeiro da s\u00e9rie \u2018Cinema e Psicologia\u2019 do blog, uma proposta de analisar produ\u00e7\u00f5es cinematogr\u00e1ficas atrav\u00e9s de lentes da Psicologia. Para essa abertura escolhi o filme \u201cBabygirl\u201d (2024), de Halina Reijn, que no momento em que escrevo est\u00e1 nos cinemas e j\u00e1 pode ser considerado um sucesso de bilheteria. 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