{"id":827,"date":"2026-07-24T14:08:00","date_gmt":"2026-07-24T17:08:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.verbopsicologia.com.br\/blog\/?p=827"},"modified":"2026-07-24T14:16:34","modified_gmt":"2026-07-24T17:16:34","slug":"contos-de-terapia-teatro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.verbopsicologia.com.br\/blog\/contos-de-terapia-teatro\/","title":{"rendered":"Contos de terapia &#8211; Teatro"},"content":{"rendered":"<p>Ele est\u00e1 h\u00e1 mais de dois anos neste processo psicoterap\u00eautico. Com exce\u00e7\u00e3o das \u00faltimas semanas, come\u00e7ou absolutamente todas as sess\u00f5es com a frase &#8220;N\u00e3o sei. N\u00e3o pensei em nada&#8221;. Tamb\u00e9m com exce\u00e7\u00e3o das \u00faltimas, ele se enquadrou na c\u00e2mera de modo que sua cabe\u00e7a parecia estar se afogando na tela. Eu, sem pontu\u00e1-lo explicitamente, observava atenta o simbolismo desse apequenamento. \u00c0s vezes, nem sua boca estava enquadrada dentro da imagem.<\/p>\n<p>Ele se contorcia com a ideia de dizer &#8220;eu te amo&#8221;. Para ele, dizer algo assim &#8220;\u00e9 forte&#8221;. Tamb\u00e9m era forte dizer que ele se achava uma pessoa legal, inteligente ou interessante. Me causava extrema ternura quando sua solu\u00e7\u00e3o a essa dificuldade era dizer que estava aceitando a ideia de ser &#8220;n\u00e3o-chato&#8221; ou &#8220;n\u00e3o-burro&#8221;. Se tratava de um grande avan\u00e7o.<\/p>\n<p>Mas a sensa\u00e7\u00e3o de inferioridade persistia. E por qu\u00ea?<\/p>\n<p>Em parte, devido aos c\u00f3digos. C\u00f3digos sociais que circulam na cultura de modo a produzir pertencimento e que, quando ele decidia levar para o seu pr\u00f3prio corpo, sentia que algo era estranho, desencaixado, constrangedor. Era estranho, para ele, &#8220;puxar papo&#8221;, se apresentar ou dizer suas opini\u00f5es. Era dif\u00edcil, at\u00e9, entender que postura corporal manter numa reuni\u00e3o de trabalho de modo que os demais n\u00e3o lhe vissem com estranheza.<\/p>\n<p>Mas os c\u00f3digos da l\u00edngua e do corpo n\u00e3o eram os \u00fanicos elementos de dif\u00edcil lide em seu conflito interno. Os c\u00f3digos de conduta moral, que lhe diziam o que \u00e9 &#8220;certo&#8221; e &#8220;errado&#8221;, eram bastante estritos. Por isso, quando n\u00e3o se tinha certeza (palavra derivada daquilo que \u00e9 <em>certo<\/em>), mais valia assumir a neutralidade. Infelizmente, essa neutralidade n\u00e3o era assumida apenas em um ou outro contexto, mas se tornava o tom de sua pr\u00f3pria subjetividade: neutro, cinza, morno, passivo, distante. E justamente essa neutralidade era o que ia alimentando sua no\u00e7\u00e3o de um si-mesmo inferior aos demais.<\/p>\n<p>Vez ou outra, eu quis propor que ele brincasse mais. Quis apresentar-lhe jogos e dizer que recomendava que se inscrevesse em aulas de teatro. Mas a interven\u00e7\u00e3o n\u00e3o cabia; e eu acompanhava, com extrema ternura e com algum pesar, seu caminho desejante e de gradual fortalecimento subjetivo.<\/p>\n<p>A culpa, aos poucos, foi aparecendo menos como um conte\u00fado central das sess\u00f5es. Ele j\u00e1 n\u00e3o contava sobre as vezes em que retornou \u00e0 sua casa ou carro para ter certeza de que n\u00e3o havia deixado nada de errado pelo caminho, sob o medo de que seus pais tivessem que pagar por esses danos caso ele os causasse. Ele j\u00e1 n\u00e3o ruminava t\u00e3o insistentemente as falas que tinha feito no mesmo dia, buscando o equ\u00edvoco ou o excesso como forma de autopuni\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>H\u00e1 algumas sess\u00f5es, ele come\u00e7ou a se enquadrar sob \u00e2ngulos diferentes, quase como se estivesse fazendo uma experimenta\u00e7\u00e3o de novos modos de ser. Al\u00e9m disso, passou a iniciar algumas das sess\u00f5es com &#8220;Eu pensei em v\u00e1rias coisas&#8221;.<\/p>\n<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-829 alignright\" src=\"https:\/\/www.verbopsicologia.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/pexels-didsss-5499495-200x300.jpg\" alt=\"\" width=\"273\" height=\"410\" srcset=\"https:\/\/www.verbopsicologia.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/pexels-didsss-5499495-200x300.jpg 200w, https:\/\/www.verbopsicologia.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/pexels-didsss-5499495-683x1024.jpg 683w, https:\/\/www.verbopsicologia.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/pexels-didsss-5499495-768x1152.jpg 768w, https:\/\/www.verbopsicologia.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/pexels-didsss-5499495-1024x1536.jpg 1024w, https:\/\/www.verbopsicologia.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/pexels-didsss-5499495-1365x2048.jpg 1365w, https:\/\/www.verbopsicologia.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/pexels-didsss-5499495-scaled.jpg 1707w\" sizes=\"(max-width: 273px) 100vw, 273px\" \/><\/p>\n<p>Entendo que ele vem aceitando se libidinizar. Entendo que ele vem se autorizando a ser quem \u00e9 e a gostar do que encontra.<\/p>\n<p>Quando pequeno, seus pais n\u00e3o &#8220;faziam festinha&#8221; para as coisas que ele fazia. Desde pequeno, ele participou de atividades de maneira t\u00e9cnica e sem muito envolvimento emocional. Para ele, era bom atingir n\u00fameros, mas n\u00e3o importava tanto, no campo emocional, se ele vencia.<\/p>\n<p>Ele trouxe, em uma das \u00faltimas sess\u00f5es, que tinha um problema &#8220;n\u00e3o t\u00e3o grande assim&#8221; no qual queria pensar. Tinha o compromisso de ir a um evento de trabalho e entendia que naquele lugar ele n\u00e3o era algu\u00e9m importante. Ele trouxe novamente a sensa\u00e7\u00e3o de se sentir estranho performando sua apresenta\u00e7\u00e3o. No entanto, de modo imbricado, comentou: &#8220;Mas me apresentar dizendo &#8216;oi&#8217;, e meu nome, \u00e9 org\u00e2nico&#8221;. Legal. E o que mais? &#8220;Tamb\u00e9m entendo que est\u00e1 tudo bem eu n\u00e3o ser t\u00e3o importante nesse contexto, pois entendo meu lugar. Entendo que meu objetivo nesse evento \u00e9 voltado n\u00e3o s\u00f3 para os clientes, como para mim. Eu estou fazendo o meu&#8230; &#8211; meio bobo dizer isso, mas vou dizer &#8211; o meu <em>networking<\/em>&#8220;. N\u00e3o \u00e9 nada bobo voc\u00ea dizer isso. \u00c9 legal.<\/p>\n<p>Ele disse, finalmente, que come\u00e7ava a perceber que antes se sentia c\u00f4modo no lugar da pequenez e hoje se sente inc\u00f4modo com tamanha restri\u00e7\u00e3o autoimposta.<\/p>\n<p>Chegou \u00e0 conclus\u00e3o de que precisa parar de ver o campo social como um teatro.<\/p>\n<p>Intervenho: O campo social \u00e9 um teatro, e quanto a isso n\u00e3o h\u00e1 o que fazer. Mas a quest\u00e3o fundamental aqui \u00e9 como voc\u00ea toma o teatro para si. Me parece que voc\u00ea vem percebendo que mais importante que a plateia, \u00e9 a sua experi\u00eancia em cena. E mais importante que o protagonismo que voc\u00ea tem pe\u00e7a, \u00e9 a entrega e autenticidade que voc\u00ea d\u00e1 a esse personagem. Voc\u00ea j\u00e1 fez aulas de teatro? &#8220;N\u00e3o&#8221;. H\u00e1 algo interessante nas aulas de teatro para adultos que \u00e9: muito antes e muito mais extensivamente que \u00e0 pe\u00e7a propriamente dita, o teatro d\u00e1 \u00eanfase ao jogo, ao divertimento, \u00e0 presen\u00e7a, \u00e0 conex\u00e3o com o corpo e \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de confian\u00e7a e intimidade entre os pares. Para chegar ao momento c\u00eanico de maneira plena, \u00e9 preciso abrir essa fase de experimenta\u00e7\u00e3o de si. A qual, entendo, voc\u00ea v\u00eam fazendo aos poucos.<\/p>\n<p>Ele sorriu.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ele est\u00e1 h\u00e1 mais de dois anos neste processo psicoterap\u00eautico. 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