{"id":833,"date":"2026-07-27T15:23:32","date_gmt":"2026-07-27T18:23:32","guid":{"rendered":"https:\/\/www.verbopsicologia.com.br\/blog\/?p=833"},"modified":"2026-07-27T15:23:32","modified_gmt":"2026-07-27T18:23:32","slug":"autodeterminacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.verbopsicologia.com.br\/blog\/autodeterminacao\/","title":{"rendered":"Autodetermina\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-weight: 400;\">A modernidade ocidental criou a ilus\u00e3o de que o \u201cEu\u201d \u00e9 uma ess\u00eancia r\u00edgida, imut\u00e1vel, imperme\u00e1vel. E por entender o \u201cEu\u201d enquanto algo r\u00edgido, o ocidente tamb\u00e9m inventou o \u201cOutro\u201d desta maneira. Assim, podemos partir do entendimento de que nesta cultura as pessoas se subjetivam atrav\u00e9s de fazer uma separa\u00e7\u00e3o muito marcada entre o \u201cEu\u201d e o \u201cOutro\u201d. O \u201cOutro\u201d se torna um estranho; um completo \u201cfora de mim\u201d, que pode ser tanto complementar, como antag\u00f4nico. <\/span><span style=\"font-weight: 400;\"><br \/>\n<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">Em estreito di\u00e1logo com essa estrutura de subjetividade, est\u00e1 o pacto civilizat\u00f3rio que a acompanha: \u201came o outro como se fosse a ti mesmo\u201d. Ou seja, esse outro \u00e9 identificado como algu\u00e9m radicalmente diferente, mas a moral social estimula que possamos integr\u00e1-lo, compreender suas atitudes e humaniz\u00e1-lo. Para esta mesma moral, \u00e9 atrav\u00e9s dessa disposi\u00e7\u00e3o afetuosa e aberta ao outro que o mundo ser\u00e1 um lugar de melhor conviv\u00eancia social.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">As pessoas capazes de pensar e sentir como se estivessem no lugar do \u201coutro\u201d, atrav\u00e9s da empatia, s\u00e3o portanto lidas como moralmente superiores. Segundo essa l\u00f3gica, quanto maior a capacidade de abra\u00e7ar o desconhecido e diferente, maior a capacidade amorosa.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A essa postura comumente chamamos \u201caltru\u00edsmo\u201d, em contraposi\u00e7\u00e3o a outra postura, que n\u00e3o se disp\u00f5e a se colocar no lugar do \u201coutro\u201d: o \u201cego\u00edsmo\u201d. Quer dizer, pessoas que n\u00e3o se esfor\u00e7am para interpretar o mundo para al\u00e9m de suas pr\u00f3prias lentes, desejos e necessidades seriam aquelas consideradas imaturas, moralmente inferiores e de dif\u00edcil lide no contexto social.<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"><br \/>\n<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">O problema \u00e9 que, se analisarmos historicamente, esse pacto civilizat\u00f3rio ocidental n\u00e3o serviu como uma verdadeira forma de respeito, sa\u00fade e amor entre todas as pessoas. Pelo contr\u00e1rio, refor\u00e7ou um sistema de domina\u00e7\u00e3o, exclus\u00e3o e explora\u00e7\u00e3o. E por qu\u00ea? Porque o verdadeiro \u201cEu\u201d centralizado pela cultura ocidental \u00e9 apenas o Eu que reitera sua pr\u00f3pria cultura e estrutura. Quer dizer, apesar de seu discurso causar a impress\u00e3o de um amor universalista, a verdade \u00e9 que quando se est\u00e1 valorizando o amor altru\u00edsta constru\u00eddo sobre as bases da modernidade, n\u00e3o se trata de valorizar um amor horizontal e multirreferencial, mas um amor que deve integrar o outro sob l\u00f3gicas de um Eu simb\u00f3lico espec\u00edfico: o da moral patriarcal.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Concretamente, o que essa l\u00f3gica produz \u00e9 um sistema no qual a culpa e o erro s\u00e3o pesadamente incutidas aos corpos mais distantes desse Eu hegem\u00f4nico. Assim, s\u00e3o as mulheres, as pessoas racializadas, as pessoas com defici\u00eancia, as pessoas LGBTQIA+, os idosos, os imigrantes etc. que mais se sentem em d\u00edvida com a sociedade ocidental; errados por serem quem s\u00e3o; e insuficientes.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00c9 muito comum que estas mesmas pessoas sintam uma culpa tremenda quando pensam em sair de uma postura \u201caltru\u00edsta\u201d. Elas t\u00eam medo de legitimarem os pr\u00f3prios desejos e, assim, serem tomadas como ego\u00edstas. Elas t\u00eam medo de serem punidas e arrastadas ainda mais para \u201cfora\u201d do sistema social, j\u00e1 que o ego\u00edsmo \u00e9 interpretado de forma negativa na cultura.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Essa preocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 leg\u00edtima. De fato, o altru\u00edsmo \u00e9 mais imposto aos dissidentes que aos hegem\u00f4nicos. De fato, as lentes do erro, da maldade e da imaturidade ser\u00e3o utilizadas conforme essas mesmas pessoas se recusarem a centralizar um sistema e as pessoas e comportamentos que deveriam ser centralizadas para mant\u00ea-lo.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Neste ponto, surge um conceito que torce a dicotomia altru\u00edsmo-ego\u00edsmo: o conceito de Autodetermina\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Autodetermina\u00e7\u00e3o \u00e9 a postura que vem sendo reivindicada e assumida por in\u00fameros combatentes dessa forma ocidental de coloniza\u00e7\u00e3o da subjetividade. Atrav\u00e9s dela, a perspectiva que impera \u00e9: \u201ceu sou e voc\u00ea tamb\u00e9m \u00e9\u201d. Ou seja: \u201cEu n\u00e3o sentirei assim como voc\u00ea e nem voc\u00ea sentir\u00e1 assim como eu. Isso \u00e9 imposs\u00edvel. Mas eu sou forte e voc\u00ea tamb\u00e9m, por isso, em contato, negociaremos e consensuaremos\u201d. A autodetermina\u00e7\u00e3o, portanto, \u00e9 uma postura que compreende a for\u00e7a e a verdade dos v\u00e1rios pontos de vista. Nela, n\u00e3o existe ego\u00edsmo nem altru\u00edsmo atrav\u00e9s da r\u00e9gua de inferioridade ou superioridade, mas sim a no\u00e7\u00e3o de que cada pessoa possui uma forma singular de estar no mundo e interpret\u00e1-lo e \u00e9 ela, e s\u00f3 ela, quem tem a capacidade de descobrir o que \u00e9 melhor para si e transitar seus pr\u00f3prios processos. Com esta perspectiva, a conviv\u00eancia social se torna um caminho sempre em transforma\u00e7\u00e3o, que deve ser conduzido com respeito aos limites dessa mesma conviv\u00eancia. Nesta l\u00f3gica, se o outro n\u00e3o quer ser integrado ou me integrar, seguiremos buscando outros encontros sem inferiorizar ningu\u00e9m.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Sentir-com (consentir) \u00e9 diferente de sentir-como (em-pathos; empatia). O segundo, sem o primeiro, \u00e9 violento pois desfaz o reconhecimento respeitoso da diferen\u00e7a.<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"><br \/>\n<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">Quando operamos sobre o mandato moral da empatia &#8211; e portanto permanecemos na dicotomia ego\u00edsmo\/altru\u00edsmo &#8211; h\u00e1 uma \u00fanica maneira correta de sentir a qual todos devem se adequar. Ademais, quando nos referenciamos nesta perspectiva, buscamos reiterar nossas pr\u00f3prias formas de interpretar e sentir, depreciando aquelas que n\u00e3o entendemos ou n\u00e3o nos parecem adequadas. \u201c\u201dOutrificamos\u201d aqueles que est\u00e3o em desacordo com a nossa forma de amar.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">J\u00e1 quando operamos atrav\u00e9s da autodetermina\u00e7\u00e3o, entendemos que tudo o que sentimos e percebemos \u00e9 singular e pode compor de maneira profundamente respeitosa com o que outras pessoas, tamb\u00e9m singulares, sentem e percebem. O amor deixa de ser sobre a integra\u00e7\u00e3o e passa a ser sobre uma boa dose de integra\u00e7\u00e3o junto a outra boa dose de separa\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A modernidade ocidental criou a ilus\u00e3o de que o \u201cEu\u201d \u00e9 uma ess\u00eancia r\u00edgida, imut\u00e1vel, imperme\u00e1vel. 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