{"id":858,"date":"2026-08-27T19:04:52","date_gmt":"2026-08-27T22:04:52","guid":{"rendered":"https:\/\/www.verbopsicologia.com.br\/blog\/?p=858"},"modified":"2026-08-27T19:04:52","modified_gmt":"2026-08-27T22:04:52","slug":"narrativas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.verbopsicologia.com.br\/blog\/narrativas\/","title":{"rendered":"Narrativas"},"content":{"rendered":"<p>A repeti\u00e7\u00e3o inconsciente &#8211; j\u00e1 dizia Freud -, \u00e9 fruto de uma experi\u00eancia na vida que ficou sem nome, se instalou como ang\u00fastia, e que precisa ser repetida at\u00e9 que algo seja elaborado.<\/p>\n<p>H\u00e1 algum tempo venho acompanhando pacientes que, depois de um tempo consider\u00e1vel de terapia, puderam transformar esses padr\u00f5es de repeti\u00e7\u00e3o. E a partir dessa experi\u00eancia cl\u00ednica, posso afirmar: dissolver essas repeti\u00e7\u00f5es inconscientes sempre est\u00e1 relacionado com um certo fortalecimento da pr\u00f3pria narrativa, em detrimento da preocupa\u00e7\u00e3o com a narrativa que o outro cria sobre n\u00f3s.<\/p>\n<p>Uma dessas pacientes, por exemplo, constantemente retornava a din\u00e2micas relacionais muito hostis para buscar destas pessoas acolhimento e integra\u00e7\u00e3o. Ela se frustrava porque um grupo de colegas de trabalho eveng\u00e9licas n\u00e3o aprovavam sua lesbiandade; se frustrava porque amigos muito jovens n\u00e3o a integravam por ser mais velha; se frustrava porque suas chefes &#8220;Barbie&#8221; n\u00e3o aprovavam seu estilo de roupas; e se frustrava porque homens n\u00e3o entendiam sua experi\u00eancia como mulher. Principalmente, se frustrava porque sua m\u00e3e n\u00e3o aceitava suas escolhas de vida e se afastava cada vez que ela tentava apresentar aquilo que a fazia feliz e potente. No fim, sua ang\u00fastia girava em torno da n\u00e3o-aceita\u00e7\u00e3o de pessoas completamente diferentes dela. Portanto, sua repeti\u00e7\u00e3o era justamente a busca desta aprova\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Outro exemplo \u00e9 o de um paciente que n\u00e3o suportava que seus ex-namorados ou ex-ficantes o vissem como vil\u00e3o da hist\u00f3ria rom\u00e2ntica. Por conta disso, constantemente entrava em rela\u00e7\u00f5es com pessoas de intelig\u00eancia emocional limitada e, pouco a pouco, criava algum tipo de conflito \u00e9tico derradeiro, no qual n\u00e3o havia uma resposta certa e outra errada. \u00c9 que ele n\u00e3o estava em busca dessas rela\u00e7\u00f5es, mas sim de um t\u00e9rmino com um enredo diferente daquele da v\u00edtima e vil\u00e3o. Ele queria chegar com algu\u00e9m numa finaliza\u00e7\u00e3o respeitosa. Assim, criava armadilhas para as rela\u00e7\u00f5es e, no processo de t\u00e9rmino, se humilhava at\u00e9 o limite, na tentativa de produzir um resultado no qual algum deles finalmente entenderia sua complexidade (o que nunca aconteceu). Ele n\u00e3o suportava o fato de que seus pais o interpretavam como um &#8220;rebelde sem causa&#8221; e n\u00e3o via qualquer possibilidade de chegar numa separa\u00e7\u00e3o respeitosa nesta rela\u00e7\u00e3o. No fim, sua ang\u00fastia girava em torno da n\u00e3o-compreens\u00e3o de pessoas limitadas.<\/p>\n<p>Como \u00faltimo exemplo, h\u00e1 o caso da paciente cuja repeti\u00e7\u00e3o era a de se responsabilizar e cuidar de todos, e em excesso. Ela se desorganizava consideravelmente quando algu\u00e9m de sua rede criticava ou recusava seu cuidado, bem como se afastava e os vilanizava. Ela precisava repetir para si mesma, atrav\u00e9s das rela\u00e7\u00f5es, que era uma pessoa \u00fatil, boa e h\u00e1bil em seu manejo de conflitos e comunica\u00e7\u00e3o. Ela foi muito criticada por sua fam\u00edlia ao longo de toda a sua inf\u00e2ncia e desenvolveu uma ang\u00fastia em torno de n\u00e3o ter sido vista e valorizada. Por isso, sua repeti\u00e7\u00e3o era a de buscar incessantemente esse olhar que valorizasse seus feitos.<\/p>\n<p>Esses tr\u00eas pacientes, ao longo dos anos em psicoterapia, passaram por processos de fortalecimento da pr\u00f3pria narrativa. A primeira embarcou numa pesquisa sobre a pr\u00f3pria ancestralidade ind\u00edgena e descobriu que sua diferen\u00e7a podia ser acolhida por comunidades parecidas com ela. Al\u00e9m disso, deixou de frequentar ambientes hostis sozinha, j\u00e1 que entendeu que precisava de companhias que a protegessem e, ao mesmo tempo, ironizassem a hostilidade junto com ela. O segundo, passou a se afetar menos pela narrativa do outro de que ele era o vil\u00e3o, j\u00e1 que construiu a certeza interna de que vinha fazendo o que podia, com as ferramentas que tinha &#8211; tal qual seus ex. Ele p\u00f4de compreender que muitas vezes as pessoas precisam desse tipo de narrativa pois n\u00e3o t\u00eam recursos para lidar com a complexidade. Deste modo, ele descansou dessa necessidade de t\u00e9rminos respeitosos e deslocou a busca por respeito dentro das pr\u00f3prias rela\u00e7\u00f5es. J\u00e1 a terceira, passou a confiar em seu pr\u00f3prio valor sem a necessidade da valida\u00e7\u00e3o externa. Assim, passou gradualmente a construir e manter apenas aquelas rela\u00e7\u00f5es que lhe eram rec\u00edprocas, e se afastar de pessoas que a usavam. Ela p\u00f4de entender que o recha\u00e7o ao seu cuidado significava uma indisponibilidade para tamb\u00e9m cuidar e que o excesso de responsabiliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o era saud\u00e1vel nem necess\u00e1rio.<\/p>\n<p>A primeira vista, essas transforma\u00e7\u00f5es podem parecer pequenas, ou at\u00e9 f\u00e1ceis de serem realizadas. Nada mais equivocado. Quando falamos em padr\u00f5es de repeti\u00e7\u00e3o inconscientes, falamos tamb\u00e9m em padr\u00f5es arraigados em feridas profundas, as quais temos muita resist\u00eancia em contatar. \u00c9 justamente por isso que os repetimos sem entender o porqu\u00ea: n\u00f3s n\u00e3o integramos seu enredo com tanta facilidade porque d\u00f3i. E, como d\u00f3i, n\u00f3s anestesiamos aquela parte de n\u00f3s que compreenderia a repeti\u00e7\u00e3o e a interromperia.<\/p>\n<p>Fortalecer a pr\u00f3pria narrativa, neste sentido, \u00e9 o processo de reconhecer nossa dor, acolh\u00ea-la e identificar que somos n\u00f3s quem temos o poder de nomear o que nos aconteceu; onde d\u00f3i; como d\u00f3i; e o que queremos fazer desta dor. Do contr\u00e1rio, estaremos eternamente presos a buscar um outro muito similar \u00e0quele que nos machucou, tentando criar uma situa\u00e7\u00e3o na qual ele n\u00e3o nos machuque da mesma forma que ocorreu no passado. Quando assumimos a responsabilidade de narrar nossa hist\u00f3ria, criamos tamb\u00e9m uma experi\u00eancia de vida na qual n\u00e3o dependemos da transforma\u00e7\u00e3o do outro, mas apostamos na transforma\u00e7\u00e3o de n\u00f3s mesmos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A repeti\u00e7\u00e3o inconsciente &#8211; j\u00e1 dizia Freud -, \u00e9 fruto de uma experi\u00eancia na vida que ficou sem nome, se instalou como ang\u00fastia, e que precisa ser repetida at\u00e9 que algo seja elaborado. H\u00e1 algum tempo venho acompanhando pacientes que, depois de um tempo consider\u00e1vel de terapia, puderam transformar esses padr\u00f5es de repeti\u00e7\u00e3o. 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