Os debates públicos sobre a questão da identidade de gênero vêm crescendo e se tornando cada vez mais populares. Se, por um lado, é extremamente positivo que mais pessoas se questionem sobre os mandatos do gênero e que aprendam sobre si e sobre a sociedade nesse processo, por outro, a massificação do debate também criou o sintoma da informação rasa, da desinformação e até do reacionismo.
O objetivo deste texto é trazer de maneira organizada algumas informações relativas à identidade gênero. Escrevo principalmente àquelas pessoas que ainda têm pouco entendimento sobre o que é a identidade de gênero, sobre o para quê se utiliza essa categoria, sobre os desafios que ela impõe e sobre os apoios possíveis a quem tem uma identidade de gênero dissidente da norma. Assim, busco oferecer informações de qualidade que ajudem a quem lê em seu processo pessoal – seja ele um processo de autoconhecimento, de estudo, ou de investigação.

O que é identidade de gênero
Identidade
Identidade é o conjunto de comportamentos, hábitos e expressões que repetimos e que nos fazem sentir quem somos. Ela não é algo fixo ou inato, mas algo que vamos construindo ao longo do tempo, através dos códigos culturais que incorporamos e a forma como agimos no mundo. Por exemplo, se eu me visto de acordo com o que entendo como “roupas de psicóloga” todos os dias, isso reforça minha percepção de mim mesma como psicóloga. Não é só a roupa que define essa identidade, mas também o modo como falo, as palavras que escolho e até minha postura – tudo isso contribui para atualizar essa sensação de “ser psicóloga”. Esse conjunto de comportamentos, hábitos e expressões são assim ritualizados.
Nossa identidade nunca é construída no vazio. Ela sempre está em diálogo com a cultura ao nosso redor, que além de nos oferecer os códigos e as referências, pode validar ou questionar as formas com as quais nos expressamos. Se por exemplo eu, como psicóloga, começar a usar roupas muito inesperadas para esse papel, é provável que a cultura ao meu redor veja isso como inadequado e não valide minha identidade de psicóloga. Por outro lado, se eu seguir as expectativas culturais do que uma psicóloga deve ser, minha identidade nesse papel será mais facilmente reconhecida.
Isso mostra como a identidade é algo construído tanto internamente quanto externamente. Há uma troca constante entre o que sentimos como “nosso” e o que a sociedade espera de nós. É um processo dinâmico, em que nem sempre conseguimos nos encaixar perfeitamente. E mesmo que a identidade pareça algo estável (como dizer “eu sou psicóloga”), ela na verdade está sempre em movimento, acompanhando as transformações e diferenças da cultura e também dos nossos próprios desejos.
Culturas que são muito rígidas em suas expectativas tendem a rejeitar a perturbação de identidades. Se eu quisesse incorporar, por exemplo, elementos do movimento punk na minha prática de psicóloga, uma cultura conservadora poderia ver isso como uma ruptura indesejável, dizendo que “psicóloga é psicóloga” e “punk é punk”. Isso revela que nos processos de identidade estão em jogo, também, certos interesses de agentes culturais que se beneficiam ao manter identidades como se fossem essências fixas. O movimento punk, neste caso, poderia levar a uma irrupção não favorável aos profissionais de psicologia que preferem manter imagens higienistas da profissão, imagens estas que lhe conferem autoridade.
Portanto, o processo de formar nossa identidade é sempre uma negociação entre o que a sociedade aprova e o que sentimos como autêntico. Às vezes, nos adaptamos às expectativas sociais; outras vezes, as desafiamos. Portanto, passar pelo processo de identificação e formação de identidade pode ser uma experiência de tensão, mas também abrir espaço para novas formas de ser.
Gênero
No século XX, estudiosos perceberam que características como o jeito de falar, vestir-se e comportar-se não são exclusivamente determinadas pelo corpo biológico, mas são fortemente influenciadas pela sociedade e suas expectativas. A partir dessa ideia, surgiu o conceito de gênero, que separa o que é biológico (como os órgãos sexuais) do que é socialmente construído (como as expectativas de comportamento para homens e mulheres).
O conceito de gênero nos ajuda a entender que os papéis tradicionalmente associados a homens e mulheres – como a ideia de que homens devem ser fortes e racionais e mulheres, sensíveis e cuidadoras – não são naturais ou imutáveis. Eles foram construídos ao longo do tempo e podem ser transformados. Este entendimento também pode ser conceitualizado como “construcionismo social (do gênero)”.
Identidade de gênero
Se quando falamos de gênero, estamos nos referindo às normas e expectativas sociais acerca do que significa ser “masculino” ou “feminino”, quando falamos de identidade de gênero estamos nos referindo a como cada indivíduo ou grupo se relaciona e incorpora essas expectativas.
Nesse sentido, identificar-se como cisgênero significa que a pessoa se reconhece e age de acordo com as expectativas e códigos culturais do sexo com que nasceu. Já identificar-se como transgênero significa que a pessoa constrói sua identidade de gênero de forma diferente dessas normas, criando um espaço para viver fora das expectativas e códigos impostos ao seu corpo biológico.
É possível, também, que pessoas cisgênero empurrem mais ou menos às transformações na identidade de gênero, sem necessariamente transicionar ou abandonar seu gênero. Por exemplo, mulheres cis podem reivindicar que o cuidado dos filhos não é exclusivamente delas, mas também dos homens cis, e assim impulsionar uma transformação dos códigos culturais sobre o que é “ser mulher” e “ser homem”. Do mesmo modo, pessoas transgênero podem transicionar sem contudo chegarem a um estado de “pureza trans”; ou seja, podem levar consigo inúmeros códigos de gênero ainda incorporados e a partir daí ou transformá-los com o tempo ou buscar conservá-los.

Porque a identidade de gênero impõe desafios
Expectativas sociais
As expectativas sociais são forças externas que nos moldam. Diferentemente de serem apenas uma força ruim e impositiva, são também elas que nos permitem mover no mundo. O olhar do outro é o que nos dá a certeza de que somos e estamos vivos e por isso nunca escaparemos da cultura.
O problema não é que as expectativas (ou o desejo) do outro existam, mas sim que elas se imponham sobre nós de modo que nos apaguem ou desintegrem. O desafio, portanto, é lidarmos com um mundo que coloca sobre nós suas expectativas negociando com elas, para que, mesmo inadequades ao que se espera de nós, tenhamos um lugar digno.
Importante considerar, no entanto, que há sociedades, grupos e pessoas que são extremamente violentos em relação às própria expectativas, além de terem muito poder, o que torna qualquer negociação injusta. É o caso do modo como a sociedade ocidental reage às dissidências de gênero, por exemplo, já que sua força e expectativa em manter o binarismo e os papéis de gênero é tão grande, que qualquer pessoa que a desafie ficará vulnerável. O desafio aos dissidentes, neste caso, é juntar forças, encontrar espaços de respiro e vitalização e sustentar a transformação. Escreverei em mais detalhes sobre isso no último tópico.
Autoconhecimento
Um dos maiores desafios que a identidade de gênero traz é o mergulho profundo no autoconhecimento. Escutar o que nosso corpo tem a nos dizer não é simples, nem imediato. Dar espaço para essas percepções pode ser desconfortável e agir a partir delas, também; especialmente quando isso envolve transformar situações de apagamento ou violência.
A identidade de gênero, nesse sentido, nos desafia a lidar com as implicações de reconhecer tanto a nós mesmos quanto aos outros, e a decidir se manteremos o ciclo de apagamento ou se ousaremos rompê-lo, mesmo correndo o risco de perder certas conexões e seguranças. No entanto, ao nos abrirmos para o autoconhecimento e nos libertarmos do que restringe nossa vitalidade, temos a chance de construir uma vida mais plena e autêntica.

Para quê a categoria “identidade de gênero”
Desnaturalização do gênero
Resumidamente, a identidade de gênero é uma biopolítica. Isso quer dizer que o gênero condiciona os corpos humanos a determinados comportamentos, que podem ser favoráveis ou desfavoráveis à manutenção do status quo. Sendo assim, nossas identificações, incorporações e repetições de gênero – ou seja, nossa identidade de gênero – são políticas; e impactam não só a nós mesmes, mas também à sociedade.
Quando entendemos que a identidade de gênero é uma categoria para nos ajudar a pensar e agir politicamente, entendemos, também, que o mundo está em constante transformação e que nada, nem o gênero, é um dado eterno e imutável. Deste modo, podemos construir um outro mundo, em que as coisas não precisam ser exatamente como são.
É nessa perspectiva que a categoria de identidade de gênero pode nos ajudar a desnaturalizar os papéis de gênero e a própria categoria de gênero como algo natural e imutável.
Empoderamento pessoal e coletivo
Quando expressamos autenticamente aquilo que sentimos estamos fazendo um duplo movimento: por um lado, autorizando a nossa própria existência e dando-lhe um lugar, por outro, autorizando às demais pessoas que façam o mesmo. Ao mostrar para o mundo que somos exatamente aquilo que somos, mostramos que não há uma única (ou duas únicas: masculina e feminina) forma de sentir, de ser e de se expressar. Mostramos, também, que nem sempre seremos aquilo o que esperaram de nós – e que está tudo bem.
Mais ainda, a autenticidade é sempre um movimento gentil com nós mesmes e via de regra promove a sensação de integração e vitalização. Isso porque ela diz de um respeito profundo ao que o corpo sente e quer e quando o escutamos, ele responde. Nesse sentido, encontrarmos o lugar e movimento (de gênero) mais fluido para nós promove saúde pessoal e coletiva, já que se autoriza, aí, uma espiral de respeito, vitalidade, cuidado e potência.

Quais as fontes de apoio quando nossa identidade é dissidente da norma
Rede de apoio
A rede de apoio pode estar conformada por pessoas, animais, instituições, lugares e atividades. A rede que buscamos e alimentamos quando nossa identidade de gênero é dissidente é fundamentalmente o que nos sustentará nessa experiência. Se pudermos estabelecer uma rede afetiva e que de fato apoie o nosso processo, será a rede que nos conferirá um lugar vital. Será preciso lidar com as próprias barreiras emocionais e com as barreiras sociais para alcançar essa rede.
É preciso, portanto, conhecer a rede prévia, a rede atual, e a rede utópica, para, pouco a pouco, caminharmos rumo à utopia da autenticidade e emancipação.
Lazer e cultura
O prazer e o movimento também potencializam o corpo e potencializam a vida. Por isso, é fundamental que a transformação de identidades seja sustentada por atividades de disfrute. O lazer e a cultura cumprem um importante papel de reforçar o lugar digno e possível de quem resiste à imposição de códigos de gênero.
Apoio profissional
O apoio de profissionais (Psicólogues, Terapeutas Ocupacionais, Assistentes Sociais, Educadores, Enfermeires e Médiques) que saibam trabalhar as problemáticas de gênero pode ser um fator determinante à saúde da pessoa cuja identidade de gênero é dissidente da norma. Isso porque tanto o corpo, quanto o universo emocional, quanto a aprendizagem e a vida material estão envolvidos no processo de transição de gênero e nem sempre uma pessoa tem todas as ferramentas necessárias para trilhar esse caminho.
Bons profissionais ajudarão a pessoa gênero-dissidente em sua autonomia e na potencialização de seu desejo de ser si mesme, através de ferramentas qualificadas para tal.
Programas e políticas afirmativas de gênero
Outra ferramenta importante podem ser as políticas e programas, públicos ou privados, que partam do reconhecimento de que ser dissidente de gênero em nossa sociedade leva a uma situação injusta socialmente. Essas políticas e programas afirmativos de gênero se propõem a compensar essa injustiça. São exemplos: as cotas trans, os incentivos culturais ou educativos à população trans, os serviços que oferecem apoio específico ao público LGBTQIA+, os incentivos para o trabalho e moradia a essa população, entre outros.

Conclusão
Este texto é apenas um apanhado geral de informações que considero importantes a qualquer pessoa que esteja pensando sobre gênero. Minha explicação passou pelo o que é a identidade de gênero, os desafios que assumir essa categoria impõe e que caminho podemos construir a partir dela, mas essa é uma das inúmeras formas de nos aproximarmos a essa complexa questão.
Espero que o texto tenha te ajudado com suas próprias reflexões e caminhos!