Você tentou conversar. Tentou nomear as violências que sofreu. Tentou fazer com que ela reconhecesse o quanto sua autoestima foi minada aos poucos, o quanto você se cansou de não ser escutada. Você tentou construir uma relação mais coletiva com alguém que insistia em viver no individualismo e na desconfiança. Mas toda vez que você trouxe isso, ela se fechou. E no fim, disse que você estava invadindo os limites dela, que você era exigente demais, que não respeitava seu espaço.
Hoje, ela conta para as pessoas ao redor que você terminou “do nada”. Que você se tornou uma pessoa agressiva, menos sensível, irreconhecível. E isso te dói. Porque não foi “do nada”.
Não confundamos a reação do oprimido com a violência do opressor. O que você queria era ser vista, ouvida, reconhecida em sua experiência e, no final, em sua dor. Queria que ela dissesse: “sim, eu te feri, e me responsabilizo por isso”. Queria que ela validasse sua versão da história. Queria redenção.
Mas talvez seja hora de admitir: ela não vai te redimir.
Talvez seu desejo por essa redenção seja um pedido por justiça emocional. Mas aqui te faço uma provocação amorosa: talvez seja também uma necessidade de ser reconhecida como “boa”, como justa, como sensível — como alguém que cumpre as regras da bondade e por isso merece amor. E essa necessidade tem raízes profundas. Pode ser que ela tenha a ver com a forma como você foi subjetivada — com um modelo de identificação de feminilidade branca; como alguém educada a se ver apenas sob lentes morais. Porque o racismo e o machismo ensinam que o valor da mulher está quase exclusivamente em ser percebida como boa, como adequada, como cuidadora, como ética. Quando isso é negado, parece que você desaparece. Parece que algo em você morre.
Mas talvez agora seja a hora de sair desse lugar. De entender que a sua dor é legítima mesmo que ela não seja validada por quem a causou. Que você não precisa mais se colocar diante de sua ex como uma petição viva. Que seguir tentando ser legitimada por alguém que se recusa a escutar é só uma forma de continuar sendo ferida.
Ela talvez precise manter a narrativa de que você foi a má da história — porque é mais fácil do que lidar com o que realmente aconteceu. Isso diz muito sobre os limites dela, e não sobre quem você é. As pessoas frequentemente precisam de certas narrativas que sustentam sintomas. São esses sintomas que as protegem de uma dor profunda, que não conseguem tocar. Se você não conseguiu quebrar a narrativa dela, não é porque você é insuficiente. A princípio, não é nem sobre você. Se a narrativa se mantém é porque ela ainda precisa muito da estrutura subjetiva que cria essa narrativa, como forma de se sustentar.
Aceitar que a redenção não virá não é desistir de si. É o começo de um deslocamento. É sair do tribunal – a estrutura do julgamento moral – e entrar no testemunho – a estrutura do acolhimento à sua verdade subjetiva. É continuar falando da sua experiência com quem te escute de verdade, não para convencer ninguém, mas para existir com inteireza. Falar porque sua história importa. Falar, também, para se escutar e legitimar o que sente.
Você não é má por ter rompido. Você rompeu porque se cansou de tentar se fazer caber num lugar onde não havia espaço para você. E isso, por si só, já é uma forma de dizer: eu me escolho.
Por te falar eu te assustarei e te perderei?
Mas se eu não falar eu me perderei,
e por me perder eu te perderia.
– A paixão segundo G.H., Clarice Lispector
Dedico este texto às minhas amigas, mulheres incríveis que me escutam com todo o coração.
