Feminismo. Me situa!
Muitas mulheres e pessoas LGBTQIAPN+ se perguntam sobre se são feministas ou, inclusive, se são feministas o suficiente. Aquelxs de nós que não estamos organizadxs de maneira militante talvez tenhamos maior dificuldade em nos identificarmos dessa maneira ou mesmo fazemos confusões sobre o que seria, de fato, uma atitude ou valor feminista. O problema dessa confusão, a meu ver, é que isso pode nos levar a um lugar de pouca auto-confiança e mesmo de inação quando nos percebemos em um contexto em que seria importante nos posicionarmos, seja por interesses próprios ou coletivos. Além disso, não sabermos onde nos situamos também pode ser uma barreira para darmos os próximos passos em relação àquilo que queremos conquistar.
Para pensarmos sobre essa dificuldade em nos situarmos, pensemos quem nunca se fez perguntas do tipo:
- Ter opiniões alinhadas com o feminismo é ser feminista?
- Escrever com uma perspectiva crítica ao machismo é ser feminista?
- Ser mulher é ser feminista?
- Eu posso dizer que sou feminista para pessoas que estudaram mais ou atuam com o feminismo a mais tempo que eu?
- Ajudar outras mulheres é ser feminista?
- Afinal, quem e o quê define o que é uma feminista?
- Tenho lugar de fala no e sobre o feminismo?
A próxima sequência de textos que farei no blog será uma tentativa de minha parte de ajudar a dissolver essas dúvidas. Dividirei os textos em três partes e este texto é a primeira delas.
Nesta primeira parte, vou propor um recorrido da História clássica do movimento feminista que nos ajuda a situar onde e quando foram desenvolvidas algumas ideias e conceitos-chave. Essa contextualização histórica nos ajudará a entender o que levou o feminismo a fazer emergir na sociedade determinados valores, ações e transformações. A ideia de escrever sobre isso veio como um apoio para que identifiquemos quais desses valores compartilhamos e de onde eles vêm. Assim, começaremos a perceber onde nos situamos dentro do feminismo.
Na segunda parte, proporei uma apresentação heterodoxa do feminismo. Não mais o modo clássico de apresentá-lo, numa perspectiva histórica que começa num ponto específico, mas sim uma que apresenta os feminismos que se formaram a partir de contextos vários e não necessariamente alinhados com as perspectivas hegemônicas do movimento feminista. Aqui, o objetivo continuará sendo que entremos em contato com essas ideias e valores e identifiquemos o que mais nos atrai e está de acordo com o modo como sentimos e pensamos. Também tenho o objetivo de que ampliemos o entendimento do que é o feminismo e que possamos perceber ainda mais sua complexidade e multiplicidade.
Na terceira parte, o texto apresentará reflexões para que cruzemos o plano de nossos valores e ideais com o plano de nosso lugar atual, nossas reais possibilidades e desejos de ação. É aqui onde melhor identificaremos como o feminismo atravessa a nossa vida, que feminismo(s) nos atravessa(m) e para onde caminha nosso desejo em relação ao feminismo.

Parte 1
A História Clássica do Feminismo: ondas, perspectivas e rupturas
Primeira onda: as liberais
Talvez já saibamos disso, mas a palavra feminismo surge como uma maneira pejorativa de descrever aquelas que lutavam pelos direitos das mulheres. Nas notícias impressas, campanhas e nas trocas cotidianas, a sociedade ocidental criou inúmeras formas de ataque a essa força que emergia dessas sujeitas, para sufocar seu potencial transformador. Nesta época, a finais do século XVIII e princípios dos XIX, nem mesmo essas próprias mulheres convencionaram chamar-se de um único nome (“feminismo”), até porque os movimentos dos quais elas provinham eram complexos, diversos e não tinham os mesmos objetivos políticos. Muitas delas não queriam se identificar com os estigmas pejorativos conferidos ao feminismo e muitas não estavam satisfeitas em unir-se com outras mulheres que não projetavam o mesmo futuro comum.
Foi a partir de um relativo consenso das mulheres de que seus grupos se juntariam para reivindicar o direito ao voto feminino, que o movimento feminista ganhou cara de unidade (sem, contudo, ainda chamar-se “feminismo”). É a palavra “sufragistas” que passa a circular, então, como identificadora desse grupo político que se tornava massivo (sufrágio significa processo de escolha por votação). A maior parte desse movimento havia incorporado ideais revolucionários franceses – igualdade, liberdade, fraternidade – e por isso essas sujeitas políticas estavam predominantemente em busca de igualdade em relação ao grupo masculino, de liberdade em relação a um sistema opressor que as excluía e de fraternidade em relação a outras mulheres.
A estas mulheres se associou, posteriormente, a ideia de “primeira onda do feminismo”, uma ideia de origem do movimento. Não podemos perder de vista, contudo, que muitas das mulheres que lutavam nesta época se recusaram à associação com as sufragistas. Como havia um grande número delas que não eram contempladas e nem se identificavam com os ideais burgueses da revolução francesa, muitas se associaram ao feminismo apenas conjunturalmente e outras muitas estavam lutando por direitos através de outros movimentos, que as contemplavam mais amplamente (as indígenas em lutas territoriais, as trabalhadoras em movimentos sindicais, ou as negras em movimentos abolicionistas, por exemplo). Nesse sentido, há inúmeras críticas que buscam desassociar o feminismo a essa história clássica, originada na “primeira onda”. Essas críticas, em boa parte, por mais que reconheçam as conquistas desse movimento, entendem a perspectiva clássica da história como eurocentrada e proveniente de um feminismo branco e de classe média, majoritariamente.

Segunda onda: as radicais
A partir dos anos 60 do século XX, diferentemente do que acontecia no momento anterior em que o feminismo era socialmente visto como algo pejorativo, o feminismo ganha um cunho positivo. Isso ocorre porque o clima de contra-cultura ganhou um impulso legitimado socialmente, tal qual o que aconteceu com as outras grandes revoluções libertárias que ocorriam no mundo, como o movimento estudantil e maio de 68, o movimento hippie, o movimento chicano, a revolta de stonewall, o movimento dos direitos civis nos EUA e o panteras negras. É neste momento de efervescência revolucionária que o feminismo chegou à sua conhecida formulação “o pessoal é político”; uma campanha que dizia da necessidade de politização daquilo que acontecia no âmbito “privado” e supostamente, até então, não fazia parte do que era de âmbito público e não tinha importância política. Muitas convencionaram chamar esse momento, que vai dos 60 até os 80, de “segunda onda do feminismo”. No entanto, repito, há críticas em relação a esse modo de historicizar o feminismo.
Feministas dessa época também convencionaram, em certa medida, identificarem-se como radicais. Bebendo de movimentos radicais de longa data, elas se identificaram com esse modo de trazer uma essência para o movimento para reforçar sua identidade política. Assim, reforçaram o sujeito político “Mulher” como centro do feminismo e construíram ações e teorias que se aprofundaram na experiência de opressão da mulher e no combate radical a essa mesma opressão. Dessa época, entre outros, surge o conceito de patriarcado e a ideia de libertação sexual da mulher, além de uma forte positivação da maternidade e dos atributos positivos das mulheres. Pautadas numa noção de que a fragilidade ou inferioridade da mulher é uma construção social, elas avançaram sobre pautas como o direito ao aborto, a necessidade de políticas de proteção e mitigação da violência contra a mulher e numa perspectiva que focava na saúde (emocional, sexual, física, financeira) da mulher. Ou seja, nessa época, diferentemente da anterior, a maior ênfase estava naquilo que diferenciava e fortalecia o sujeito “Mulher” e não tanto na busca por igualdade com o “Homem”.

Terceira onda: as interseccionais
Do final dos anos 80 até os anos 2000 teve início a outra “onda” do feminismo (uso em aspas para retomar a perspectiva crítica), na qual crescem as críticas internas àquilo que se estava chamando de feminismo e de “Mulher”. A perspectiva crítica, pouco a pouco, vai ganhando espaço no movimento. Quer dizer, as próprias feministas passaram a criticar as contradições do feminismo, especialmente indicando suas falhas em reconhecer a experiência diversa das mulheres (e pessoas LGBTQIAPN+) no que tange a raça, país de origem, classe, capacidade física, sexualidade e gênero. Essa terceira onda se valeu principalmente do conceito de interseccionalidade para repensar o tipo de ação política que se estava fazendo e a própria perspectiva epistemológica que se estava utilizando. Ao reconhecer que diferentes corpos são atravessados por diferentes categorias (raça, classe, gênero etc) e que isso tem efeitos e implicações materiais e políticas, essas feministas reconheceram, também, que o feminismo não podia seguir sustentando um sujeito universal “Mulher” sem que estivesse reproduzindo opressões.
A força contrária das feministas radicais em relação a estas seria uma resistência em relação a dissolver o sujeito político “Mulher”, já que, para elas, isso poderia significar despolitização ou desmonte de direitos conquistados e do próprio movimento feminista. As feministas interseccionais, em resposta, acreditam que sua crítica amplia os objetivos do movimento e reinventa o modo de fazer política, sem descartar por completo, mas transformar, o modo anterior.

Reflexões de fechamento-abertura
Quando nos referimos às conhecidas divisões do feminismo: “Liberal”; “Radical” e “Interseccional” é dessas construções históricas às quais estamos fazendo referência. Não existem, no entanto, feministas radicais, interseccionais, ou liberais “puras”. Quer dizer, se bem podemos tender a uma ou outra maneira de entender a sociedade e as forças que geram suas desigualdades, também somos sujeitxs históricxs e estamos permeadxs por construções advindas de diversos momentos dessa história. Assim, sugiro que não nos afixamos, necessariamente, na ideia de caber em uma ou outra perspectiva.
A ideia aqui é que possamos lidar com essa contradição com alguma tranquilidade, reconhecendo-a, dando-lhe lugar e trabalhando para sermos cada vez mais coerentes entre o que são nossos valores e o que são nossas ações. Quer dizer, se meus valores são de alguém que entende a importância de reconhecer a interseção das opressões, por exemplo, talvez não faça tanto sentido eu continuar defendendo um sujeito universal Mulher em discussões com a família; ou se acredito numa perspectiva de igualdade (salarial, por exemplo) com os homens, talvez precise pensar sobre quanto o projeto que estou assumindo contempla verdadeiramente a multiplicidade de mulheres e se é isso o que quero continuar defendendo. A beleza da contradição se expressa quando a reconhecemos e assumimos responsabilidade por ela.

Obrigada por ler até aqui!
Espero que tenha te apoiado de alguma forma e te convido a continuar essa reflexão acompanhando a Parte 2 do texto.