Este texto é o primeiro da série ‘Cinema e Psicologia’ do blog, uma proposta de analisar produções cinematográficas através de lentes da Psicologia. Para essa abertura escolhi o filme “Babygirl” (2024), de Halina Reijn, que no momento em que escrevo está nos cinemas e já pode ser considerado um sucesso de bilheteria. O impacto pessoal que esse filme me gerou, com certeza, é um dos motivos pelo qual o escolhi. Porém, o fato de mobilizar questões de poder, abuso, confiança e transformação pessoal também foi essencial para que o filme me parecesse uma perfeita primeira escolha para um blog dedicado à saúde mental.
Apesar de ser um filme relativamente simples de compreender e acompanhar, sua força, a meu ver, vem da destreza como constrói uma narrativa que foge aos clichês e institui uma posição política. Essa maneira de narrar me chegou como um grande alívio, especialmente por estarmos falando do campo do amor, da atração sexual e da sexualidade.
Prefiro não fazer uma descrição detalhada da trama e escrevo para quem já o assistiu (contém spoilers!!!), mas me parece importante fazer um breve resumo de contextualização.
O filme trata da história de Romy (Nicole Kidman), uma CEO de uma grande empresa de entregas robotizadas, casada com o diretor de teatro Jacob (Antonio Banderas), com quem tem duas filhas, Isabel (Esther Rose McGregor) e Nora (Vaughan Reilly). Ela é aparentemente feliz por suas conquistas, estrutura familiar e rotina, mas logo de início ficamos sabendo que, apesar disso, é frustrada sexualmente na relação com o marido. Toda a história se desenrola centralmente sobre seu envolvimento com um estagiário bem mais jovem, Samuel (Harris Dickinson), fato que sucede na medida em que constroem juntos uma maneira de explorar a sexualidade que até então ela nunca havia experimentado. Romy descobre com Samuel um desejo sexual que joga com o poder e a coloca num lugar de submissão e, assim, pouco a pouco descobre também uma força que a leva a uma posição mais autêntica e livre no mundo.

Críticas ao filme
Como sou estudiosa do feminismo, uma das primeiras coisas que me chamou a atenção sobre o filme foi a resposta singular que ele parece trazer a um impasse atual deste movimento social: pode a mulher gozar no lugar de submissa sem reproduzir o machismo?
Muitas feministas, sob a ideia de que “o pessoal é político” e portanto de que “o que acontece na cama é a (re)produção do que acontece fora dela”, dirão que a posição de submissão no sexo é uma maneira de produzir e reproduzir o sistema patriarcal. Para esta crítica, além de ser impossível fazer uma separação entre a fantasia sexual e a “vida real”, é ruim que mulheres desejem assumir essa posição, já que ela significaria um obstáculo aos objetivos de um feminismo que quer emancipar mulheres do lugar de subordinação aos homens. O ponto central deste argumento seria justamente a inseparabilidade entre a fantasia e a realidade, argumento com o qual discutirei mais adiante.
Outra crítica feminista que se poderia apontar é a de uma flagrante questão de classe e raça no filme. É possível interpretar que o privilégio de Romy é o que permite que ela possa se colocar em qualquer posição (sexual), sem verdadeiramente estar correndo um risco. A personagem chega a afirmar em algum momento da história que o fator risco é justamente o núcleo de seu desejo sexual, mas é possível que nos questionemos o quanto ela realmente perderia. Neste sentido, o filme estaria transmitindo a mensagem de que se permitir assumir a posição de submissão pode ser algo positivo, sem considerar que a grande maioria das mulheres está enredada em tramas de sujeição ao poder que não lhes permitem essa mesma liberdade de se colocar em “risco”. Quer dizer, por mais que se transmita que a troca de posições pode levar a uma transformação potente, o filme não aborda um questionamento sobre em que posição se deve estar previamente, como mulher, para que esse passo seja possível. Será que é preciso partir da posição de CEO, branca, rica e de um país central para que se possa entregar o próprio poder sem verdadeiramente correr o risco do desamparo total?
Considero esses dois argumentos válidos e minha análise não os descarta como críticas importantes. No entanto, quero focar em uma perspectiva que – espero – complemente essas interpretações através da Psicologia.

O que podemos abrir de reflexão sobre a mulher que goza no lugar de submissão?
Para responder a essa pergunta, retomo a cena logo após Samuel e Jacob entrarem em um conflito no qual se agridem. Ao descobrir que Samuel e Romy estavam se relacionando através de um jogo de poder entre dominador e submissa, Jacob diz a Samuel: “O masoquismo feminino é [apenas] uma fantasia masculina”; ao que Samuel responde: “Essa é uma ideia antiquada sobre a sexualidade”. Com isso, somos levados a uma torção interessante quanto ao modo de entendermos a posição das mulheres no sexo, já que a ideia de que a mulher não é submissa é lida como antiquada e não o contrário. Se com essa fala Jacob representa o homem artista, sensível, e que de certo modo aprendeu com o feminismo de sua época que a mulher não é e não quer a posição de submissão, Samuel – diferente de reiterar o lugar submisso da mulher como uma essência de seu gênero – representa o homem que respeita a sexualidade da mulher e a sua própria, seja ela qual for. A palavra “antiquada”, aí, marca simbolicamente uma diferença geracional que diz não apenas das pessoas envolvidas no diálogo, mas de diferentes gerações de homens e suas maneiras de pensar a sexualidade. Assim, o filme também diz de uma geração de mulheres mais velhas em busca de terem sua sexualidade respeitada e ampliada. Aqui me parece válido fazer um pequeno apêndice recuperando um diálogo de outra cena, em que Samuel e Romy estão conversando num contexto pós-festa e Romy pergunta a ele sobre seus sentimentos por outra mulher, em comparação com o que sente por ela. Ele responde algo do tipo: “Eu me gosto de um jeito quando estou com você e de um jeito diferente quando estou com ela”. Considero essa fala, que poderia parecer um detalhe, uma marca geracional importantíssima, já que demonstra o quanto, para Samuel (e sua geração), o núcleo da sexualidade também gira em torno de como sentimos a nós mesmos quando estamos com alguém – o que difere da geração anterior, cujo núcleo estaria no que se sente por alguém e não por si.
Romy se permite viver essa experiência, mas constantemente reflete seu conflito interno de que, se por um lado sente muito prazer, por outro sente que está fazendo algo errado ou sujo. A culpa que permeia seu conflito aparece ao longo do filme através de duas faces: 1. a vergonha, por exemplo quando se recusa a dançar; quando cobre seu rosto com um lençol e pede ao marido que transem; ou quando se sente envergonhada ao obedecer a Samuel pela primeira vez e 2. as confissões, por exemplo quando diz a Samuel que tem medo de que ele se machuque devido a ela ter poder sobre ele; ou quando revela a Jacob que desde a infância tem desejos imundos que nunca pôde extirpar de si. Destaco esse fator que me pareceu muito interessante: a traição não aparece como um fator central de culpa e sim sua própria libertação sexual.

A diretora dá a entender muito implicitamente que algo aconteceu na infância de Romy – provavelmente um abuso sexual em contexto de culto religioso – que incutiu nela um desejo sexual do qual ela tentou se curar de todas as maneiras possíveis: múltiplas terapias, disciplina, construção de uma vida “normal” e perfeita, dedicação amorosa à família etc. Sentir-se suja, nesse sentido, remeteria à ideia de que, ao dar vazão a um desejo sexual que surge desse contexto, estaria de certa forma afirmando que gostou de ser abusada ou que aprova o abuso sexual infantil. A libertação sexual de Romy, portanto, significa muito mais que apenas uma questão de permitir-se jogar um jogo; ela significa a batalha de enfrentar o conflito e tirar de sua experiência traumática algo positivo, sem contudo tornar-se um monstro.
Na minha interpretação, é genial a maneira com que a diretora destacou a sexualidade em seu potencial terapêutico. Isso porque uma sexualidade em que Romy goza no lugar de ser mandada a coloca e a liberta, ao mesmo tempo, da obrigação de ser essa “boa menina” que por tanto tempo sustentou. Quer dizer, na fantasia, quando se torna a “cachorrinha”, ela é colocada na posição de “boazinha”, já na “vida real”, ela é libertada dessa mesma posição, já que abdica da perfeição na medida em que aceita seu desejo sexual.
A ideia de que a sexualidade é paradoxal seria, então, a chave que cria uma enorme diferenciação entre a fantasia e a realidade. Nesse sentido, o símbolo da “baby girl” também aparece em outras duas faces paradoxalmente ligadas entre si: por um lado, revela o lugar infantilizado e obediente de Romy (tal qual a criança abusada) e por outro, revela seu lugar de mulher adulta que tem poder e, com ele, escolhe confiar num homem adulto que a controla. Daí que esse símbolo apareça em seu potencial curativo: no sexo, é possível a Romy que se remeta ao trauma do abuso atualizando-o sob novos matizes. Por essa via, ela deixa de ser a “boa vítima” para tornar-se dona de um desejo que sua história (traumática) constituiu.
Não é à toa que a confiança seja um tema central do filme. Ter alguém em quem confiar para conduzi-la foi condição prévia para que o conflito pudesse aparecer e se desfazer.
A Psicologia (e mais especificamente, a psicanálise) entende que sem confiança e entrega a outra pessoa, nenhum conflito psíquico se desfaz. Isso porque é o outro quem tem o poder de sustentar conosco – ou não – a aceitação de quem somos integralmente. Seria impossível fazermos isso de maneira individual porque somos seres interdependentes e nossa posição no mundo depende de nos sentirmos pertencentes a partir do olhar do outro. Esse olhar que de certa forma “incorporamos” pode ser percebido por nós de maneiras diferentes de acordo com as experiências que vivemos e vai mudando conforme as novas experiências relacionais, também. Por isso, seremos mais saudáveis psiquicamente quanto mais generoso e continente for esse olhar que vamos recebendo e incorporando.
É fundamental para a narrativa, portanto, que a traição deixe de ser impasse moral, como se esperaria de um clichê, para ser um impasse de psiquismo. A questão sobre a qual orbitamos é: vale mais a pena sustentar uma vida robotizada e correta, ou correr o risco da transformação psíquica? Nunca – repito -, nunca a transformação se dá sem que se corra riscos. Confiar é um risco, pois é entrega. Nesse sentido, mais um elemento interessante da trama é que sempre que Romy busca exercer mais fortemente seu controle da situação, Samuel dá um jeito de furá-lo, demonstrando que depois que a transformação começa, é quase impossível voltar atrás e refazer uma situação de segurança total. É o que acontece, por exemplo, sempre que ele aparece de surpresa na casa de Romy ou quando Romy ameaça a própria funcionária Esme (Sophie Wilde) por estar namorando Samuel e ele conta à namorada que tem um caso com a chefe, o que dá a ela o poder de manipulação ao revés.

Conclusão
Li algumas comentários de pessoas que se incomodaram com o filme devido a, ao final, Romy não ter perdido absolutamente nada. Pelo contrário, ela chega ao patamar de uma vida sexual mais feliz com o marido, mantém seu cargo de CEO, melhora a relação com as filhas e se sente mais aceita e empoderada. Se bem essa crítica conversa em algum grau com a crítica de que ela só pôde se colocar em risco devido a seu privilégio, também me chegou como uma crítica que diz de um desejo de punição muito pautado numa perspectiva cristã de que Romy seria culpada e por isso deveria sofrer as consequências de seus atos. Infelizmente, essa lógica segue muito incorporada em nossa cultura e é uma das grandes barreiras às pessoas para que vivam sua vida de maneira mais honesta e autêntica. Minhas lentes vão mais para uma perspectiva de que, por mais que Romy tenha mentido para o marido, ela pôde se responsabilizar por seus atos – a partir do tempo necessário para isso – de maneira cuidadosa e franca. Não houve romantizações em relação à reação de Jacob e isso é ótimo. Ele se irritou, ficou confuso e não quis aceitar a verdade de que sua esposa estava sexualmente frustrada. No entanto, na medida em que foi podendo escutar essa verdade, também pôde compreendê-la num sentido mais amplo e abrir a possibilidade de que refizessem uma intimidade mais forte e bela. O mesmo aconteceu com as filhas, especialmente sua filha mais velha. A verdade pode ser dura, mas é verdadeira. A reflexão que fica é sobre se queremos viver uma vida compromissada com com essa verdade, correndo o risco de suas consequências, ou não.
Ao final das contas, Romy poderia ter perdido seu cargo, poderia ter passado a ser odiada pela família, poderia ter perdido sua reputação. Mas não o perdeu porque foi aceita. Suas filhas ganharam, com isso, uma relação mais inteira com a mãe; seu marido, um casamento mais feliz; sua empresa, uma maior abertura para ideias inovadoras; Samuel, um emprego vantajoso. E isso só pôde acontecer pela responsabilidade com que Romy conduziu a situação. Creio que esse filme institui um importante esperançar (mais especial ainda devido ao contexto em que vivemos) de que acolhermos nossos conflitos com um amor responsável pode potencializar o amor e a felicidade individual e coletiva.