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Contos de terapia – Tarot

Ela sabia que tinha uma dificuldade de permanência objetal. Ou seja, logo após passar por experiências em sua vida, ela costumava ter a sensação de que aquilo que foi vivido ficava congelado no instante, sem que pudesse carregar consigo as memórias afetivas relacionadas ao evento.

Diversas vezes, ela constatou que seu problema era de memória. Por exemplo, em sessão, não recorria a cenas da infância ou adolescência.

Explicava, nesse mesmo sentido, que possui diários cujo propósito é o de fazê-la lembrar que ela faz coisas interessantes e divertidas na vida, principalmente em períodos depressivos.

Especialmente e nessa mesma linha de sentido, ela se angustiava com a ideia de não poder confiar nas próprias lembranças sobre a relação abusiva que teve com o ex. O gaslighting que este último fazia era muito eficaz em seu caso, pois era fácil que ela caísse em dúvidas sobre a própria percepção.

Entre as várias respostas de seu caminho, ela encontrou o Tarot como uma ferramenta de leitura de-si-para-si. Era em contato com as cartas que ela podia entender, através de símbolos, que resquícios de experiências estavam presentes em seu corpo-energia. “O que eu senti?”; “Quais foram as intenções daquela pessoa?”; “O que ainda preciso aprender sobre essa situação?”. O tarot confirmava aquilo que fazia sentido para ela: “transbordamento de afeto puro”; “manipulação mental”; “poder pessoal e autoconfiança”. Ela, no entanto, não se satisfazia com essas respostas e continuava a perguntar de outras formas, com outras tonalidades.

É que a confiança não vem da validação do que se sente ou se percebe, mas é a sensação mesma de não precisar dessa validação.

Ela possui uma rede de amigos consistente, faz coisas incríveis, é inteligente, cuidadosa e hábil em vários aspectos. Mas ela não confia que seja isso; e por isso mesmo precisa de um outro – sejam os amigos, os diários, as redes sociais ou o tarot – que confirmem sua existência subjetiva.

 

Há pouco tempo, ela se relacionou com uma outra pessoa, com quem teve boa química. Conforme contava, ela se sentia confortável com sua presença, além de estimulada intelectualmente e feliz sexualmente. Com ele, ela se sentia vista e admirada.

Acontece que, de modo abrupto para ela, ele cortou o vínculo:

Num dia em que ela compartilhava sobre suas dificuldades emocionais relacionadas a um processo de mudança, ele menosprezou seus afetos. Ela reagiu, dizendo que o que sentia era, sim, legítimo. Pouco depois, ele encaminhou uma mensagem na qual dizia que não funcionavam mais e que preferia que parassem por ali.

Deste ocorrido, sucedeu que o Tarot foi utilizado até o quase-esgotamento. “Por que?”; “Ele vai se arrepender?”; “Ele pensa em mim?”; “Onde eu errei?”; “Fui justa?”; “Ele foi cruel?”. Todas as suas perguntas diziam de uma angústia nuclear: a dúvida sobre se ela era alguém digna de ser amada.

É que a certeza de que somos dignos de amor não vem do modo como o amor do outro nos chega, mas é a sensação mesma de que somos amados. 

Ela não tinha bem estabelecida a confiança em si mesma e por isso tampouco tinha a sensação de que é amada.

Se ela pudesse confiar realmente que seus sentimentos eram legítimos, não se sentiria culpada por defendê-los frente a alguém que os menosprezou. Igualmente, reconheceria que uma pessoa que se recusa a estar numa relação com alguém que sabe se defender não lhe traria amor, mas abuso.

Por fim, se ela confiasse no que sente, saberia reconhecer quando foi amada a partir dos próprios parâmetros de amor.

Seu tarot, até hoje, não descansou. Ela ainda tem perguntas e um desejo de chegar até o limite. Quer dizer, ela ainda precisa da repetição para poder confiar em si. “Eu tenho amigos”; “Eu sofri abuso”; “Eu faço muitas coisas legais”; “Eu estava certa”; “Eu posso me defender”; “Eu conquistei isso”.

O dia em que a certeza chegar, ela não será absoluta. Mas ela simplesmente saberá, pois confiará.

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