Ela vinha passando por processos de ressignificação. Através de seus revigorantes contatos com relações românticas e de amizade, além de um interesse especial por reality shows de culinária, decidiu utilizar cascas de banana em sua próxima receita.
É que as relações anteriores eram demasiado “cabeçudas”. Em contato constante com filósofos, linguistas e cientistas sociais da USP, ela sentia que toda experiência precisava passar por um crivo intelectual e ser elaborada de forma a produzir uma ideia inovadora e bem fundamentada. Se acompanhada da citação de um autor, melhor.
Foi um alívio e, em termos terapêuticos, um progresso, quando ela pôde assumir para si que gostava de assistir Master chef. Não queria mais a sensação obsessiva de buscar conceitos complexos que descreviam um fenômeno. Não queria mais a autocobrança que vinha da comparação com a habilidade associativa de seus pares. Ela só queria imaginar os cheiros, o gosto e vibrar junto aos participantes quando tinham um desafio culinário a vencer.
Ela começou esse processo com pequenos passeios no parque próximo de sua casa, logo depois das sessões. Gostava da sensação de vida que esse ambiente lhe proporcionava enquanto registrava os caminhos que havia percorrido naquela hora de conversa comigo. Destes momentos, pôde absorver as pausas: o cheiro das plantas, o som da risada das crianças, os instantes em que não sabia como continuar a escrita e estava tudo bem.
Foi decidindo participar de oficinas oferecidas pelo SESC e outros centros culturais de São Paulo: cerâmica, introdução ao pole dance, colagem, percussão, pães artesanais. Ela teve experiências divertidas, frustrantes, estranhas e alegres. Ela conheceu pessoas diferentes. Ela começou a habitar novas paisagens.
Uma virada fundamental em seu processo terapêutico aconteceu no dia em que se dispôs a cozinhar as tais cascas de banana. Lhe havia encantado um episódio do Master chef no qual o desafio principal dos cozinheiros era utilizar ingredientes que geralmente são descartados: talo de brócolis, crista de galo, sementes de melancia, casca de banana. Ela ficou fascinada com a perspectiva de que aquilo que normalmente é desvalorizado pelas pessoas poderia se tornar um saboroso ingrediente principal.
Parecia que todo o caminho que trilhamos até então havia sido desenhado para este momento: aquele em que ela perceberia seu próprio valor através da criatividade; aquele em que ela entenderia que nem sempre é sobre conquistar o lugar de “melhor ingrediente”; aquele em que a ressignificação do “lixo” era possível.
Comentou com sua mãe, feliz, que havia comprado ingredientes para fazer esse prato. Cebola, alho, pimentão, bananas e temperos. A fruta, ela separaria para fazer um bolo.
Mas nesse ponto-auge, sua mãe comenta: “Eu fiz lombo. Por que você não faz essa casca caramelizada, que nem a cebola caramelizada que você fez no outro dia?”.
Sua mãe nunca lhe faz elogios. Sua mãe nunca reconheceu suas conquistas. Sua mãe constantemente desaprovava suas escolhas e lhe fazia duras críticas. Com esta fala, sua mãe instituiu uma falha em seu caminho: “Fico feliz porque minha mãe acabou de reconhecer minha habilidade de cozinhar (cebolas caramelizadas). Acho que posso conciliar meu desejo de fazer um prato salgado com as cascas e esse seu reconhecimento”.
Ela decidiu fazer cascas de banana, com cebola, caramelizadas. O prato ficou horrível. A banana “amarrou”. Ela jogou tudo fora.

Frustrada, fez um novo prato com cebolas caramelizadas, sem cascas. Serviu a sua mãe.
Pensou se deveria esbravejar com ela. Dizer que foi tudo sua culpa e que ela é a verdadeira responsável por estragar seus sonhos e processos. Mas lembrou-se que quem optou por fazer as cascas caramelizadas foi ela. Lembrou-se, ainda, que ao longo de todo a preparação do prato em que ficou vocalizando sua preocupação de que não iria dar certo, sua mãe dizia: “Volte atrás. Você não precisa fazer o que eu pedi”.
O problema é que ela escolheu colocar açúcar. Ela escolheu se iludir. E o prato não sairia mais o mesmo, mesmo que quisesse.
É bonita a forma como a vida se revela. É surpreendentemente belo o que faz um processo terapêutico.
A partir deste dia, ela percebeu que é responsável por suas escolhas e que quer dar cada vez mais voz ao seu Desejo. Ela fez um bolo de banana suficientemente gostoso, que tomou à tarde com café.