Ele está há mais de dois anos neste processo psicoterapêutico. Com exceção das últimas semanas, começou absolutamente todas as sessões com a frase “Não sei. Não pensei em nada”. Também com exceção das últimas, ele se enquadrou na câmera de modo que sua cabeça parecia estar se afogando na tela. Eu, sem pontuá-lo explicitamente, observava atenta o simbolismo desse apequenamento. Às vezes, nem sua boca estava enquadrada dentro da imagem.
Ele se contorcia com a ideia de dizer “eu te amo”. Para ele, dizer algo assim “é forte”. Também era forte dizer que ele se achava uma pessoa legal, inteligente ou interessante. Me causava extrema ternura quando sua solução a essa dificuldade era dizer que estava aceitando a ideia de ser “não-chato” ou “não-burro”. Se tratava de um grande avanço.
Mas a sensação de inferioridade persistia. E por quê?
Em parte, devido aos códigos. Códigos sociais que circulam na cultura de modo a produzir pertencimento e que, quando ele decidia levar para o seu próprio corpo, sentia que algo era estranho, desencaixado, constrangedor. Era estranho, para ele, “puxar papo”, se apresentar ou dizer suas opiniões. Era difícil, até, entender que postura corporal manter numa reunião de trabalho de modo que os demais não lhe vissem com estranheza.
Mas os códigos da língua e do corpo não eram os únicos elementos de difícil lide em seu conflito interno. Os códigos de conduta moral, que lhe diziam o que é “certo” e “errado”, eram bastante estritos. Por isso, quando não se tinha certeza (palavra derivada daquilo que é certo), mais valia assumir a neutralidade. Infelizmente, essa neutralidade não era assumida apenas em um ou outro contexto, mas se tornava o tom de sua própria subjetividade: neutro, cinza, morno, passivo, distante. E justamente essa neutralidade era o que ia alimentando sua noção de um si-mesmo inferior aos demais.
Vez ou outra, eu quis propor que ele brincasse mais. Quis apresentar-lhe jogos e dizer que recomendava que se inscrevesse em aulas de teatro. Mas a intervenção não cabia; e eu acompanhava, com extrema ternura e com algum pesar, seu caminho desejante e de gradual fortalecimento subjetivo.
A culpa, aos poucos, foi aparecendo menos como um conteúdo central das sessões. Ele já não contava sobre as vezes em que retornou à sua casa ou carro para ter certeza de que não havia deixado nada de errado pelo caminho, sob o medo de que seus pais tivessem que pagar por esses danos caso ele os causasse. Ele já não ruminava tão insistentemente as falas que tinha feito no mesmo dia, buscando o equívoco ou o excesso como forma de autopunição.
Há algumas sessões, ele começou a se enquadrar sob ângulos diferentes, quase como se estivesse fazendo uma experimentação de novos modos de ser. Além disso, passou a iniciar algumas das sessões com “Eu pensei em várias coisas”.

Entendo que ele vem aceitando se libidinizar. Entendo que ele vem se autorizando a ser quem é e a gostar do que encontra.
Quando pequeno, seus pais não “faziam festinha” para as coisas que ele fazia. Desde pequeno, ele participou de atividades de maneira técnica e sem muito envolvimento emocional. Para ele, era bom atingir números, mas não importava tanto, no campo emocional, se ele vencia.
Ele trouxe, em uma das últimas sessões, que tinha um problema “não tão grande assim” no qual queria pensar. Tinha o compromisso de ir a um evento de trabalho e entendia que naquele lugar ele não era alguém importante. Ele trouxe novamente a sensação de se sentir estranho performando sua apresentação. No entanto, de modo imbricado, comentou: “Mas me apresentar dizendo ‘oi’, e meu nome, é orgânico”. Legal. E o que mais? “Também entendo que está tudo bem eu não ser tão importante nesse contexto, pois entendo meu lugar. Entendo que meu objetivo nesse evento é voltado não só para os clientes, como para mim. Eu estou fazendo o meu… – meio bobo dizer isso, mas vou dizer – o meu networking“. Não é nada bobo você dizer isso. É legal.
Ele disse, finalmente, que começava a perceber que antes se sentia cômodo no lugar da pequenez e hoje se sente incômodo com tamanha restrição autoimposta.
Chegou à conclusão de que precisa parar de ver o campo social como um teatro.
Intervenho: O campo social é um teatro, e quanto a isso não há o que fazer. Mas a questão fundamental aqui é como você toma o teatro para si. Me parece que você vem percebendo que mais importante que a plateia, é a sua experiência em cena. E mais importante que o protagonismo que você tem peça, é a entrega e autenticidade que você dá a esse personagem. Você já fez aulas de teatro? “Não”. Há algo interessante nas aulas de teatro para adultos que é: muito antes e muito mais extensivamente que à peça propriamente dita, o teatro dá ênfase ao jogo, ao divertimento, à presença, à conexão com o corpo e à produção de confiança e intimidade entre os pares. Para chegar ao momento cênico de maneira plena, é preciso abrir essa fase de experimentação de si. A qual, entendo, você vêm fazendo aos poucos.
Ele sorriu.