Este post está direcionado para aquelas pessoas que nunca fizeram psicoterapia antes, que entendem que precisam de ajuda profissional e que estão receosas do que podem encontrar em uma primeira sessão com uma(um/ume) psicóloga(o/e).
Primeiramente, quero te acolher e dizer que essas dúvidas e receios são normais e super compreensíveis. Por isso, escolhi escrever sobre alguns pontos que podem te ajudar:

O Receio da primeira sessão de terapia
Muitas pessoas têm resistência a esse encontro com o desconhecido. O campo do cuidado em saúde mental está permeado de muitos estigmas, informações cruzadas e até escassez de informação. Isso também acontece porque a saúde mental precisa de um cuidado em saúde bem diferente daqueles exclusivamente voltados ao corpo e às doenças.
No campo do cuidado em saúde mental podemos dizer que os sintomas são inespecíficos e o que está de alguma maneira adoecido é o nosso universo interno, a maneira como experienciamos o mundo e nossas ferramentas para nos expressarmos. Isso significa que a(o/e) profissional que cuidará de nós estará buscando os indícios de adoecimento justamente nesse lugar e, por isso, é preciso que possamos mostrá-lo para ela(e/u).
Mostrar nossa intimidade pode ser difícil e a partir daí, pode vir a resistência: Será que temos controle sobre o que iremos ou não mostrar? Será que essa pessoa detém uma verdade sobre nós que nós mesmos não temos? Será que irá me julgar? Será que vai me entender? São muitas as dúvidas. Se você se identificou com essas palavras, te convido a continuar lendo, para quem sabe aplacarmos um pouco da angústia que envolve esse conflito.

Como é uma sessão-entrevista?
Se você está no processo de busca por psicoterapia, já deve ter percebido que a maioria das(os/es) psicólogas(os/es) não te dá respostas de pronto e que prefere agendar uma sessão onde você possa contar sobre o que te leva à terapia.
Bom, em termos de estrutura, é isso mesmo o que costuma acontecer na primeira sessão: uma breve apresentação e uma pergunta bem aberta sobre o que te leva a buscar a terapia. Às vezes o formato da sessão-entrevista pode ser mais direcionado, com perguntas fechadas e específicas (nome, idade, profissão, histórico familiar etc), mas é mais comum que nesse momento a(o/e) profissional esteja disponível a escutar a sua questão de maneira mais aberta.
Alguns pacientes irão se apresentar pela via dos sintomas, outros, desenharão todo um contexto de sua história de vida até chegar ali, outros, até, mal conseguirão dizer em palavras. Não há um jeito certo ou errado de responder a essa pergunta. O jeito com que um paciente escolhe responder já estará dando à(ao/ae) psicóloga(o/ue) informações muito importantes sobre o atual estado de seu universo interno e é a partir daí que ela(e/u) irá modulando sua intervenção profissional.

Qual é o objetivo de uma sessão-entrevista?
O objetivo dessa primeira sessão, portanto, é diferente para cada um dos envolvidos: para a(o/e) profissional psicóloga(o/e) os objetivos são analisar a demanda que aparece no encontro, encontrar as próprias ferramentas para acolhê-la e, na medida do possível, comunicar ao(à/ae) paciente aquilo que pode fazer para ajudá-lo(la/le). Essa comunicação não é uma solução mágica para o problema que o(a/e) paciente apresenta, mas sim uma conexão profunda com aquilo que o(a/e) paciente está experienciando e o estabelecimento de uma aliança que, com ou sem palavras, deve transmitir a mensagem: “Eu te escuto. Eu te vejo. Eu estarei aqui para caminhar junto a você”.
Já para o(a/e) paciente, o objetivo é ir encontrando pontos de confiança em uma pessoa até então desconhecida, de modo a expor uma vulnerabilidade que o(a/e) levará a lugares cada vez mais autênticos. Nem sempre a confiança se estabelecerá na primeira sessão, mas é preciso que haja algum sinal, para o(a/e) paciente, de que ele(a/e) se sente escutado(a/e), visto(a/e), apoiado(a/e) e que pode potencialmente confiar naquela pessoa que o(a/e) atendeu.
Assim, é fundamental que na sessão-entrevista o(a/e) paciente registre em sua percepção o que captou sobre como a(o/e) psicóloga(o/e) o(a/u) recebeu. Este ponto é importantíssimo: o sucesso de um processo terapêutico depende muito do vínculo terapêutico, por isso, o desejo do(a) paciente de estabelecer essa conexão com a(o/e) profissional e consigo próprio(a) é algo que nucleará todo o processo. É preciso que uma primeira sessão sirva para que, ao final, o(a/e) paciente possa perceber como se sentiu e projetar essa experiência dentro de um processo de tratamento contínuo: Senti alívio? Senti que liberei uma raiva que estava aqui e eu não sabia? Senti que a pessoa não estava atenta a mim? Senti medo? Senti carinho? Senti que posso confiar nessa pessoa? Todas essas perguntas levarão a um mapeamento importante na hora de tomar uma decisão sobre continuar ou não o processo.

Mas será que a psicóloga realmente não estará me julgando?
Psicólogas(os/es) realmente comprometidas(os/es) com a própria profissão costumam sentir, acima de tudo, interesse e respeito por seus(suas/sues) pacientes. Diferente de um olhar normativo que rastreia aquilo que é inadequado com o objetivo de “consertá-lo”, psicólogas(os/es) devem ter uma disposição para olhar com humildade e humanidade a quem as(os/es) procura. A vulnerabilidade, a necessidade de apoio e a interdependência são algumas das características que mais nos tornam humanos e o simples fato de um paciente se disponibilizar à terapia já mostra que ele(a/u) aceita sua própria humanidade e sua própria imperfeição e insuficiência. É por reconhecermos o quão forte e corajoso é esse movimento que nós, psicólogas(os/es), sentimos esse respeito tão profundo.
Uma frase que recebi uma vez de uma colega psicóloga dizia mais ou menos o seguinte: “Com o passar do tempo em uma psicoterapia, o respeito e interesse que o terapeuta sente por seu paciente vai se transformando em alguma coisa que se aproxima da admiração, à medida que vamos assistindo a luta profunda e corajosa que a pessoa trava para ser ela própria”. Na minha opinião, essa frase é muito certeira e traduz poeticamente o que acontece tanto na primeira, quanto ao longo das sessões.
Faço uma ressalva, no entanto, porque do mesmo jeito que nossos(as/es) pacientes são humanos(as/es), nós, psicólogas(os/es), também somos. Carregamos histórias, valores e experiências que podem ter ou não nos levado à maior ou menor sabedoria quanto a nossa capacidade de respeito e empatia. Nós, psis, nunca seremos perfeitas(os/es), mas há, sim, aquelas(es) que puderam aprender mais ou menos essa habilidade. A boa notícia é que se você encontrar com alguém cuja habilidade de empatia e respeito não está tão desenvolvida quanto você precisa, você provavelmente perceberá, já que todos os seres humanos temos muitos mecanismos que nos fazem perceber quando realmente estamos sendo vistos(as/es) e escutados(as/es). Por mais que nossas sensações muitas vezes nos confundam, o corpo costuma nos dizer quando sente que pode ou não confiar em alguém. Por isso, retomo o que escrevi no tópico anterior: as sensações que ficarão impressas no corpo do(a/e) paciente após uma sessão de terapia são essenciais para que eles(as/us) possam se sentir mais seguros(as) a dar continuidade à psicoterapia. É como se elas fossem uma bússola à decisão de permanecer ou mudar.
E se eu não gostar da experiência de uma primeira sessão?
Está tudo bem em não gostar de uma primeira sessão e essa experiência nunca terá sido um investimento em vão. Inclusive, é bem interessante começar o processo de busca por uma(um/ume) terapeuta já sabendo que a primeira fase é uma experimentação com profissionais diferentes, até que se encontre aquele por quem se tenha sentido mais acolhido(a/e). Experimentar diferentes formas de se dizer e diferentes reações conforme as diferentes pessoas que escutam pode levar a um grande aprendizado. Essa fase experimental pode retornar ao(à/ae) paciente a alguns saberes interessantes: 1. não somos sempre a mesma coisa; 2. mudar como se conta a história muda a história; e 3. a depender de quem e como escuta a história, sua interpretação e desfecho mudam. Saber disso, vivendo no próprio corpo, pode ser muito libertador, especialmente quando estamos falando de nossa psiquê e saúde mental.

Conclusão
Tenho alguma convicção de que se você leu o texto até aqui, é porque se interessou nas palavras e em algum lugar, elas fizeram sentido. Talvez agora você já tenha um pouco mais de ferramentas para tirar suas próprias conclusões sobre se está preparade(o/a) ou não para vencer a barreira do desconhecido de uma primeira sessão. Mas é importante lembrar: ninguém deveria te forçar a saltar nesse universo da vulnerabilidade e confiança e espero que você tome uma sábia decisão a partir de ser verdadeiro(a/e) consigo mesmo(a/e). Se seu medo ainda é grande demais, espere mais um pouco. Contemple a possibilidade de mover-se, daí onde está. Quando o movimento te parecer mais possível, caminhe. Acolher e aceitar o que você sente, no tempo em que sente, é a maneira mais amorosa e eficaz de movimentá-lo.