Há momentos na vida em que palavras que já possuíam um significado suficientemente consolidado ganham uma nova cor. Na minha experiência, a palavra Escuta vem passando por essa transformação instigante.
É que há muito tempo “escutar” deixou de ser o ato mecânico de processar sons através do ouvido. Escutar, acima de tudo, deixou de ser o ato de selecionar na paisagem auditiva aquilo que quero ouvir para reforçar minhas próprias interpretações da realidade.
Escutar, nessa experiência renovada, passou a significar o ato de criar um campo de comunicação no qual o outro é verdadeiramente integrado e, por isso, verdadeiramente amado.
Não é que idealisticamente eu acredite que possamos chegar num grau máximo e absoluto de escuta. Todos temos pontos-surdos e teremos especial resistência em escutar palavras que dialogam com nossa dor particular. Mas, segundo entendo, é justamente na conversa com aquilo que o outro apresenta e me dói que o amor tem sua chance de aparecer. É no processo de trazer tudo o que a fala do outro representa para a minha vida que eu crio, de fato, um campo de escuta. É no processo de me transformar a partir do espelho que o outro me apresenta com suas palavras e gestos que eu, de fato, amo.
A escuta integra a dor. Mas ela também integra a alegria, a vergonha, a raiva e os vários matizes da emoção. Escutar não é ouvir problemas, mas se afetar sensivelmente ao modo como alguém sente e reage ao mundo.
bell hooks afirma que “amor é ação”. Eu agregaria que amor é a ação da escuta. E aqui, volto a dizer, não estou falando de escuta como o ato mecânico de processar sons. Escuta é perceber quando o outro está cansado. Escuta é se encantar com os processos do outro. Escuta é estar presente quando o outro diz que se incomodou com algo que fizemos. Enfim, escuta é criar um espaço confortável para que o outro possa se dizer e se mostrar inteiro.
Escuta é também abdicar de ser o centro e o fim último da comunicação e deslocar esse centro para a relação. Quer dizer, quando escuto o outro, não estou nem fragmentando sua paisagem para reiterar a minha própria necessidade de amor, nem me anulando para criar uma abertura neutra e abstrata ao que esse outro traz. Quando escuto, em realidade, passo seus gestos e palavras por meu corpo – que sente, tem história, tensões, habilidades, respostas e dúvidas. Assim, o ato de escutar é a criação de um novo núcleo que não está nem em mim, nem nele: é uma força fora de nós, que nos impulsiona a formar novos corpos, sensíveis a novas coisas.
O grande desafio da escuta, resumidamente, é o fato de que a potência de Ser do outro está em constante disputa com minha necessidade de reduzi-lo a algo que me deixa confortável. E vice-versa. A disponibilidade de formar novos corpos, com um repertório diferente daquele a que nos acostumamos, gera resistência justamente porque fomos nos adaptando a proteger aquilo que dói e a manter aquilo que nos gera prazer. Nos dispormos a destensionar camadas de proteção para dançar com o outro de maneira ampliada é a metáfora essencial do ato da escuta.