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Envolvimento

A ideia de apresentar minha clínica psicoterapêutica como uma clínica do envolvimento veio a partir de algo que venho escutando de muitas pessoas quando buscam a psicoterapia: uma demanda por profissionais da Psicologia que “não apenas escutem, mas também falem”. 

Muito reflexiva sobre o que queria dizer este pedido, interpretei que trata-se não apenas do desejo por profissionais que literalmente coloquem suas palavras em sessões, mas sim que esses profissionais se envolvam com aquilo que escutam. Minha interpretação da demanda anunciada, portanto, é a de que nesse pedido está uma busca por presença e afeto, especialmente nesse lugar de vulnerabilidade e intimidade que é a psicoterapia. 

Nego Bispo é um autor referência do contracolonialismo e coloca em seu livro “A terra dá, a terra quer” que a ideia de desenvolvimento, normalmente anunciada na cultura como algo positivo, é, na verdade, uma desimplicação; um des-envolvimento.

Faço uma associação entre essa importante colocação e a demanda por mim identificada, já que, entendo, a clínica do distanciamento tem raiz na modernidade, na ciência moderna, e produz artificialmente a separação sujeito-objeto como garantia de neutralidade científica e, portanto, rigor e qualidade científicos. 

Outra autora reconhecida, bell hooks, em seu livro “Ensinando comunidade” rechaça a objetificação e objetivação como método de encontro e aposta no amor como método possível, político e potente. Ela conceitua o amor com o qual trabalha, pelo qual luta e através do qual vive suas relações como uma combinação de carinho, respeito, comprometimento, conhecimento, responsabilidade e confiança, complementando que o amor só pode ser assim propriamente conceituado quando sua aparição se dá por meio de ações. Para ela, o amor não é idéia, é ação cotidiana. 

O método que primeiro experimentei e usei em minha clínica e depois sistematizei conceitualmente faz, em aliança com todo uma coletividade de escritores e profissionais guiades por essa perspectiva crítica, o caminho oposto do distanciamento: é naquilo que nos envolvemos e portanto nos implicamos em que considero estar a potência da psicoterapia. Nessa clínica do envolvimento amoroso, a escuta não se faz com os ouvidos e raciocínio, nem pela neutralidade distante, mas num embalo de corpo-todo; num se permitir visitar e se encantar com o universo daquele que se apresenta, através de um processo de confiança que gradualmente se constrói entre envolvidos.

Cada universo subjetivo é uma paisagem única, e tem assim suas rotas próprias, seus relevos, seu clima, seu modo de vida. Por suas transformações de/em contato com os demais ecossistemas que os atravessam e afetam, é comum que esses seres-paisagem cheguem à clínica acometidos por memórias-praga, sintomas-poluição, discursos-monocultura; ao mesmo tempo, que apresentem seus elementos-força e suas resistências-pulsões no exato mesmo contexto. Meu trabalho nesses casos é o de amorosamente conhecer, junto com aquela pessoa, as sabedorias de sua natureza, (re)conhecer essa paisagem e apoiar em sua saúde-reflorestamento; um reflorestamento de seu imaginário que trás maiores fluxos de vida àquele corpo (assim como conceitua a sentipensadora Geni Nuñez). É na posição de instigada e instigante à curiosidade e criação nesse universo-paisagem o lugar onde eu amo meus pacientes. Por isso, é aí onde os curo e ensino e eles me curam e ensinam. 

Entendo que se estamos falando de um profundo contato e transformação de uma paisagem subjetiva, como psicóloga nesse contexto preciso propor e pôr a “mão na massa”, ou melhor, “na terra dessa paisagem” e isso se faz, às vezes, em silêncio, às vezes, em anunciações; mas nunca em silenciamentos ou desimplicações. A clínica do envolvimento usa a palavra como toque gentil, respeitoso e radicalmente consensual. A clínica do envolvimento, mesmo em silêncio, é um embalo e um contorno. É uma clínica de corpos implicados. A clínica do envolvimento não se exime da ação do carinho, do respeito, do comprometimento, do conhecimento, da responsabilidade e da confiança. Essa clínica, que recusa o amor-fetiche, o amor-sacrifício ou o amor-platônico – por não considerá-los amor -, é a clínica em que atuo; é a clínica na qual amamos.

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