Numa sociedade estruturalmente monogâmica, binária e cisheteronormativa, as representações de gênero construídas sobre a mulher a tornam vulnerável tanto na solteirice, quanto no casamento, quanto na viuvez. Cada categoria mencionada, que associa o gênero com o status relacional, pode ser destrinchada da seguinte maneira:
Na viuvez, a vulnerabilidade da mulher está relacionada à imposição externa e interna de que mantenha o luto. A ideia, aqui, é que a viúva terá respeito desde que faça juz a seu papel social de devota ao falecido marido. Assim, estará vulnerável na medida em que terá restringidas as possibilidades de apaixonamento, vivacidade, sensualidade e alegria. Esse papel pode levá-la tanto ao esvaziamento, quanto ao entristecimento e à solidão.
Já no casamento, sua vulnerabilidade está associada à subordinação própria ao papel social do gênero feminino nesse contexto. Por isso, essa vulnerabilidade está também associada ao abuso psicoemocional, o que leva, em consequência, à exploração de seu trabalho reprodutivo. Neste contexto, ela supostamente goza de segurança material e emocional, além de ter reforçados socialmente discursos de respeitabilidade e um maior poder de ação. No entanto, o casamento, para boa parte das mulheres, produz apenas uma ilusão de segurança e felicidade, que não se cumpre de fato. Há, aqui, além dos riscos de violência, riscos de extrema frustração, depressão, dissociação ou ansiedades várias.
Por fim, na solteirice, a vulnerabilidade da mulher está basicamente associada à sua objetificação. Sendo seu papel social através desse status o de servir como objeto de prazer ou objeto de conquista, é comum que ela esteja vulnerável na medida em que sente a necessidade de se adequar às expectativas sobre seu corpo objetificado. O temor e vigilância sobre seu envelhecimento, seu ganho de peso, suas características emocionais e estéticas são parte dessa experiência de viver a solteirice como um universo hostil que significa, de um lado, ser o objeto escolhido, ou de outro, ser o objeto descartado. Essa autovigilância e temor podem ser vividas também quando essa mulher está casada, já que – caso não se mantenha suficientemente interessante – paira sobre o casamento a possibilidade do descarte, que pode entregá-la novamente à solteirice.
Para transcender essa vulnerabilidade o fortalecimento subjetivo é fundamental. Para tanto, não bastam frases prontas sobre a importância do auto-amor. É preciso, também, que a mulher compreenda a estrutura na qual está enredada, aos poucos se desfazendo dela, também nos campos emocional e epistêmico. Dissolver sentimentos de culpa, desnaturalizar papéis sociais e referenciar possibilidades de mundos outros são modos de atuar de maneira profunda sobre a opressão de gênero.