A repetição inconsciente – já dizia Freud -, é fruto de uma experiência na vida que ficou sem nome, se instalou como angústia, e que precisa ser repetida até que algo seja elaborado.
Há algum tempo venho acompanhando pacientes que, depois de um tempo considerável de terapia, puderam transformar esses padrões de repetição. E a partir dessa experiência clínica, posso afirmar: dissolver essas repetições inconscientes sempre está relacionado com um certo fortalecimento da própria narrativa, em detrimento da preocupação com a narrativa que o outro cria sobre nós.
Uma dessas pacientes, por exemplo, constantemente retornava a dinâmicas relacionais muito hostis para buscar destas pessoas acolhimento e integração. Ela se frustrava porque um grupo de colegas de trabalho evengélicas não aprovavam sua lesbiandade; se frustrava porque amigos muito jovens não a integravam por ser mais velha; se frustrava porque suas chefes “Barbie” não aprovavam seu estilo de roupas; e se frustrava porque homens não entendiam sua experiência como mulher. Principalmente, se frustrava porque sua mãe não aceitava suas escolhas de vida e se afastava cada vez que ela tentava apresentar aquilo que a fazia feliz e potente. No fim, sua angústia girava em torno da não-aceitação de pessoas completamente diferentes dela. Portanto, sua repetição era justamente a busca desta aprovação.
Outro exemplo é o de um paciente que não suportava que seus ex-namorados ou ex-ficantes o vissem como vilão da história romântica. Por conta disso, constantemente entrava em relações com pessoas de inteligência emocional limitada e, pouco a pouco, criava algum tipo de conflito ético derradeiro, no qual não havia uma resposta certa e outra errada. É que ele não estava em busca dessas relações, mas sim de um término com um enredo diferente daquele da vítima e vilão. Ele queria chegar com alguém numa finalização respeitosa. Assim, criava armadilhas para as relações e, no processo de término, se humilhava até o limite, na tentativa de produzir um resultado no qual algum deles finalmente entenderia sua complexidade (o que nunca aconteceu). Ele não suportava o fato de que seus pais o interpretavam como um “rebelde sem causa” e não via qualquer possibilidade de chegar numa separação respeitosa nesta relação. No fim, sua angústia girava em torno da não-compreensão de pessoas limitadas.
Como último exemplo, há o caso da paciente cuja repetição era a de se responsabilizar e cuidar de todos, e em excesso. Ela se desorganizava consideravelmente quando alguém de sua rede criticava ou recusava seu cuidado, bem como se afastava e os vilanizava. Ela precisava repetir para si mesma, através das relações, que era uma pessoa útil, boa e hábil em seu manejo de conflitos e comunicação. Ela foi muito criticada por sua família ao longo de toda a sua infância e desenvolveu uma angústia em torno de não ter sido vista e valorizada. Por isso, sua repetição era a de buscar incessantemente esse olhar que valorizasse seus feitos.
Esses três pacientes, ao longo dos anos em psicoterapia, passaram por processos de fortalecimento da própria narrativa. A primeira embarcou numa pesquisa sobre a própria ancestralidade indígena e descobriu que sua diferença podia ser acolhida por comunidades parecidas com ela. Além disso, deixou de frequentar ambientes hostis sozinha, já que entendeu que precisava de companhias que a protegessem e, ao mesmo tempo, ironizassem a hostilidade junto com ela. O segundo, passou a se afetar menos pela narrativa do outro de que ele era o vilão, já que construiu a certeza interna de que vinha fazendo o que podia, com as ferramentas que tinha – tal qual seus ex. Ele pôde compreender que muitas vezes as pessoas precisam desse tipo de narrativa pois não têm recursos para lidar com a complexidade. Deste modo, ele descansou dessa necessidade de términos respeitosos e deslocou a busca por respeito dentro das próprias relações. Já a terceira, passou a confiar em seu próprio valor sem a necessidade da validação externa. Assim, passou gradualmente a construir e manter apenas aquelas relações que lhe eram recíprocas, e se afastar de pessoas que a usavam. Ela pôde entender que o rechaço ao seu cuidado significava uma indisponibilidade para também cuidar e que o excesso de responsabilização não era saudável nem necessário.
A primeira vista, essas transformações podem parecer pequenas, ou até fáceis de serem realizadas. Nada mais equivocado. Quando falamos em padrões de repetição inconscientes, falamos também em padrões arraigados em feridas profundas, as quais temos muita resistência em contatar. É justamente por isso que os repetimos sem entender o porquê: nós não integramos seu enredo com tanta facilidade porque dói. E, como dói, nós anestesiamos aquela parte de nós que compreenderia a repetição e a interromperia.
Fortalecer a própria narrativa, neste sentido, é o processo de reconhecer nossa dor, acolhê-la e identificar que somos nós quem temos o poder de nomear o que nos aconteceu; onde dói; como dói; e o que queremos fazer desta dor. Do contrário, estaremos eternamente presos a buscar um outro muito similar àquele que nos machucou, tentando criar uma situação na qual ele não nos machuque da mesma forma que ocorreu no passado. Quando assumimos a responsabilidade de narrar nossa história, criamos também uma experiência de vida na qual não dependemos da transformação do outro, mas apostamos na transformação de nós mesmos.