A modernidade ocidental criou a ilusão de que o “Eu” é uma essência rígida, imutável, impermeável. E por entender o “Eu” enquanto algo rígido, o ocidente também inventou o “Outro” desta maneira. Assim, podemos partir do entendimento de que nesta cultura as pessoas se subjetivam através de fazer uma separação muito marcada entre o “Eu” e o “Outro”. O “Outro” se torna um estranho; um completo “fora de mim”, que pode ser tanto complementar, como antagônico.
Em estreito diálogo com essa estrutura de subjetividade, está o pacto civilizatório que a acompanha: “ame o outro como se fosse a ti mesmo”. Ou seja, esse outro é identificado como alguém radicalmente diferente, mas a moral social estimula que possamos integrá-lo, compreender suas atitudes e humanizá-lo. Para esta mesma moral, é através dessa disposição afetuosa e aberta ao outro que o mundo será um lugar de melhor convivência social.
As pessoas capazes de pensar e sentir como se estivessem no lugar do “outro”, através da empatia, são portanto lidas como moralmente superiores. Segundo essa lógica, quanto maior a capacidade de abraçar o desconhecido e diferente, maior a capacidade amorosa.
A essa postura comumente chamamos “altruísmo”, em contraposição a outra postura, que não se dispõe a se colocar no lugar do “outro”: o “egoísmo”. Quer dizer, pessoas que não se esforçam para interpretar o mundo para além de suas próprias lentes, desejos e necessidades seriam aquelas consideradas imaturas, moralmente inferiores e de difícil lide no contexto social.
O problema é que, se analisarmos historicamente, esse pacto civilizatório ocidental não serviu como uma verdadeira forma de respeito, saúde e amor entre todas as pessoas. Pelo contrário, reforçou um sistema de dominação, exclusão e exploração. E por quê? Porque o verdadeiro “Eu” centralizado pela cultura ocidental é apenas o Eu que reitera sua própria cultura e estrutura. Quer dizer, apesar de seu discurso causar a impressão de um amor universalista, a verdade é que quando se está valorizando o amor altruísta construído sobre as bases da modernidade, não se trata de valorizar um amor horizontal e multirreferencial, mas um amor que deve integrar o outro sob lógicas de um Eu simbólico específico: o da moral patriarcal.
Concretamente, o que essa lógica produz é um sistema no qual a culpa e o erro são pesadamente incutidas aos corpos mais distantes desse Eu hegemônico. Assim, são as mulheres, as pessoas racializadas, as pessoas com deficiência, as pessoas LGBTQIA+, os idosos, os imigrantes etc. que mais se sentem em dívida com a sociedade ocidental; errados por serem quem são; e insuficientes.
É muito comum que estas mesmas pessoas sintam uma culpa tremenda quando pensam em sair de uma postura “altruísta”. Elas têm medo de legitimarem os próprios desejos e, assim, serem tomadas como egoístas. Elas têm medo de serem punidas e arrastadas ainda mais para “fora” do sistema social, já que o egoísmo é interpretado de forma negativa na cultura.
Essa preocupação é legítima. De fato, o altruísmo é mais imposto aos dissidentes que aos hegemônicos. De fato, as lentes do erro, da maldade e da imaturidade serão utilizadas conforme essas mesmas pessoas se recusarem a centralizar um sistema e as pessoas e comportamentos que deveriam ser centralizadas para mantê-lo.
Neste ponto, surge um conceito que torce a dicotomia altruísmo-egoísmo: o conceito de Autodeterminação.
Autodeterminação é a postura que vem sendo reivindicada e assumida por inúmeros combatentes dessa forma ocidental de colonização da subjetividade. Através dela, a perspectiva que impera é: “eu sou e você também é”. Ou seja: “Eu não sentirei assim como você e nem você sentirá assim como eu. Isso é impossível. Mas eu sou forte e você também, por isso, em contato, negociaremos e consensuaremos”. A autodeterminação, portanto, é uma postura que compreende a força e a verdade dos vários pontos de vista. Nela, não existe egoísmo nem altruísmo através da régua de inferioridade ou superioridade, mas sim a noção de que cada pessoa possui uma forma singular de estar no mundo e interpretá-lo e é ela, e só ela, quem tem a capacidade de descobrir o que é melhor para si e transitar seus próprios processos. Com esta perspectiva, a convivência social se torna um caminho sempre em transformação, que deve ser conduzido com respeito aos limites dessa mesma convivência. Nesta lógica, se o outro não quer ser integrado ou me integrar, seguiremos buscando outros encontros sem inferiorizar ninguém.
Sentir-com (consentir) é diferente de sentir-como (em-pathos; empatia). O segundo, sem o primeiro, é violento pois desfaz o reconhecimento respeitoso da diferença.
Quando operamos sobre o mandato moral da empatia – e portanto permanecemos na dicotomia egoísmo/altruísmo – há uma única maneira correta de sentir a qual todos devem se adequar. Ademais, quando nos referenciamos nesta perspectiva, buscamos reiterar nossas próprias formas de interpretar e sentir, depreciando aquelas que não entendemos ou não nos parecem adequadas. “”Outrificamos” aqueles que estão em desacordo com a nossa forma de amar.
Já quando operamos através da autodeterminação, entendemos que tudo o que sentimos e percebemos é singular e pode compor de maneira profundamente respeitosa com o que outras pessoas, também singulares, sentem e percebem. O amor deixa de ser sobre a integração e passa a ser sobre uma boa dose de integração junto a outra boa dose de separação.